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Na Igreja Primitiva, o processo de iniciação cristã, que culminava na recepção dos Sacramentos do Batismo-Unção-Eucaristia, acontecia no catecumenato, preparação que acontecia no espaço de um a três anos, de acordo com a situação de cada catecúmeno. No início do catecumenato, recebiam o livro da Palavra e eram assinalados com a cruz de Cristo. Recebiam uma “catequese integral”, centrada na história da salvação e na explicação do Credo. Era o tempo de aprofundamento do significado da conversão e do treinamento para as exigências da vida cristã, acompanhados das orações dos fieis, dos “exorcismos menores”, das bênçãos. Era seguido de perto nesse processo pela comunidade, pelos catequistas e pelo “padrinho” ou “madrinha” que o havia apresentado.


Temos notícias dessas práticas através de vários escritos dos Padres da Igreja, como a “Didaqué” (primeiro catecismo conservado); “Demonstração apostólica” (Santo Irineu de Lião); “Tradição Apostólica” (Hipólito de Roma”); “Os Sacramentos”, “A explicação do Símbolo/Credo” (Santo Ambrósio); “A catequese aos simples” (Santo Agostinho); “Catequeses Mistagógicas” (São Cirilo de Jerusalém), entre outros.


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Na Quaresma acontecia a preparação imediata, intensificando-se as orações, os jejuns e as práticas de misericórdia. No 1º domingo da Quaresma fazia-se a “inscrição do nome” dos “competetentes”: os que pediam juntos o batismo. Iniciava-se o “tempo da purificação”, com os três escrutínios centrados nos Evangelhos da samaritana, do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro.


No 2º. Domingo, recebiam os “exorcismos menores”. Eram então assinalados novamente com a cruz de Cristo, nos olhos, ouvidos e boca. No domingo seguinte, faziam a renúncia do mal, com os “exorcismos maiores” e recebiam o Credo que deveriam aprender de cor durante a semana, para recitá-lo diante da comunidade no próximo domingo, no qual, por sua vez, recebiam a Oração do Senhor, o Pai nosso, a ser recitado no 5º domingo, junto com a comunidade.


Na Vigília Pascal eram solenemente batizados, normalmente no batistério, um edifício anexo à catedral ou na cripta. Recebiam uma primeira unção, recitavam o Credo; faziam novamente a renúncia ao mal e professavam a fé com as três perguntas. Desciam à piscina batismal, sendo imersos três vezes. Logo após eram revestidos com a veste branca; recebiam uma nova unção; degustavam “leite e mel”, como recém-nascidos na fé e, por fim, a terceira unção, com o óleo do Crisma. Os “iluminados” eram assim conduzidos para dentro da igreja, recebidos com exultação por todo o povo, para participarem por primeira vez da ceia eucarística.


Durante a oitava pascal, revestidos de branco, aprofundavam o significado do que havia acontecido na Vigília, de como foram iniciados e começaram a fazer parte do Corpo de Cristo. Eram as “catequeses mistagógicas”, ministradas normalmente pelo bispo, ou conforme o caso, por um presbítero ou diácono. Eram exortados a permanecerem firmes na fé, integrados na comunidade, buscando a coerência entre a fé e a vida: “Pela benignidade de Deus, ouvistes de maneira suficiente, nas reuniões precedentes, sobre o batismo, a crisma e a participação do corpo e sangue de Cristo. Mas agora é necessário ir adiante, para coroar o edifício espiritual de vossa instrução” (S. Cirilo de Jerusalém, 5ª Catequese Mistagógica, 1).


Eram instruídos sobre a participação continuada na Páscoa, com a oferenda da própria vida: este é o sacerdócio comum dos fieis; somos corpo de Cristo; é o Cristo todo que se oferece, cabeça e membros: este é o sacrifício da Igreja. A Eucaristia é a consumação da iniciação, pois o batizado, incorporado à comunidade eclesial, reproduz o único sacrifício, que é o seu.


“Queres saber de que modo se consagra com palavras celestiais? Eis quais são as palavras! Diz o sacerdote...” (Santo Ambrósio, Os Sacramentos 4,21).


“A razão porque estas coisas, irmãos e irmãs, se chamam Sacramento é porque nelas se vê uma coisa e se subentende outra. O que se vê tem uma aparência corpórea, o que se subentende produz fruto espiritual. Por isso, se quereis entender o Corpo de Cristo, escutai o que o Apóstolo diz a seus fieis: Agora, pois, vós sois o corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12, 27). Portanto, se sois o corpo de Cristo e seus membros, vós sois o mistério que foi colocado sobre a mesa do Senhor, o que recebeis é o mistério que sois vós mesmos. Respondeis Amém ao que sois, e com vossa resposta expressais vosso assentimento. O que ouvis, o que vedes, é o Corpo de Cristo, e vós respondeis Amém” (Santo Agostinho, Sermão 272).


Mistagogo e neófitos, pastor e comunidade comunicam-se com os olhos e o coração; os seus olhares e sua atenção se dirigem para a dupla mesa: da Palavra e do Sacramento; fixam-se nAquele que se vê sacramentado no Altar e, ao comungarem, se completa o mistério expresso na transformação operada pelo Espírito Santo: “... envia teu Espírito sobre nós e sobre estes dons, para que transforme os dons no corpo sacramental, a fim de que, participando deles, nós sejamos transformados num só corpo, o corpo eclesial” (Anáfora de São Basílio).

 


Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA

Mestre em Teologia Patrística e Professor de História da Igreja na PUC-Minas e ISTA.

01.06.2012