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Por “Igreja Primitiva” entendemos, aqui, as comunidades cristãs dos quatro primeiros séculos do Cristianismo. Tempos marcados pelo nascimento da Igreja, fundada na ressurreição de Jesus Cristo, com a vinda do Espírito Santo e o testemunho dos Apóstolos; a expansão da mensagem de Jesus para além da Palestina, atingindo Roma, o centro do Império Romano: “a era apostólica” (33-100). Entrelaçada com esse período, inicia-se a “era dos mártires” (64-311), com o surgimento dos Padres Apostólicos e dos Padres Apologistas: época das perseguições e do testemunho dos cristãos até a suprema identificação com o Senhor, com o derramamento do próprio sangue. Em 313, a Igreja ganha liberdade de culto e as graças do Império Romano, iniciando-se um novo período, conhecido como a “era da Igreja Imperial”, marcada pela contribuição dos grandes Padres da Igreja, a “era de ouro da Patrística”, com os primeiros concílios ecumênicos.

 

 “Este Jesus que foi morto numa cruz, Deus o ressuscitou e disso nós somos testemunhas!” (cf. Atos 2, 14-36; 2, 38-39; 3, 13-26; 4, 8-12; 5, 30-32; 10, 34-43; 13, 16-41). Trata-se do “querigma”, o anúncio fundamental dos que conviveram com o Senhor, passaram pelo escândalo da sua crucificação e a quem o Senhor apareceu ressuscitado, enviando-os em missão. O encontro com o Senhor vivo encheu-os de alegria e coragem. Os que ouviram esse anúncio, acreditaram e muitas foram as conversões. “Que fazemos, agora? Arrependam-se dos seus pecados, creiam e sejam batizados” (cf. Atos 2,37-41).

 

Testemunho – Anúncio  – Conversão – Fé – Batismo. Aqui estão os passos que desencadearam o processo de “iniciação à vida cristã na Igreja Antiga”. A catequese (o “ecoar” do primeiro anúncio) era dada por um grupo de ministros, chamados “doutores” nas comunidades paulinas.

 

A vida das comunidades cristãs primitivas firmava-se sobre quatro pilares: o anúncio/a doutrina dos Apóstolos; a fração do pão (ceia do Senhor/ Eucaristia); a oração e a comunhão de almas e corações, que levava à partilha dos bens, ao cuidado dos pobres e dos necessitados: “vejam como eles se amam!” (cf. Atos 2, 42-46; 4, 32-35). Anúncio e vida estavam intimamente ligados. Catequese e inserção progressiva na vida da comunidade eram inseparáveis.

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Em torno do Batismo, porta de entrada para a comunidade cristã, desenvolveu-se o “Credo”, ou “Símbolo da Fé”, que se tornou o conteúdo básico da preparação para a iniciação à vida cristã, juntamente com os “exercícios” para uma vida nova: orações, jejuns, obras de misericórdia: esmolas, visita aos enfermos e prisioneiros, cuidado com os pobres. Normalmente um membro da comunidade apresentava um simpatizante ou um convertido aos coordenadores (bispos, presbíteros e diáconos). Tornava-se assim responsável direto pelo seu acompanhamento na preparação para receber os primeiros sacramentos da iniciação cristã, intimamente ligados: Batismo – Unção e Eucaristia: era o “padrinho ou madrinha”.

 

Essa prática era denominada “catecumenato”. O tempo de preparação variava de um a três anos. Na Quaresma, havia a preparação imediata; e na Vigília Pascal recebiam-se os três sacramentos, que formavam uma unidade. Os novos cristão eram então chamados “neófitos” (renascidos) ou “fotizómenoi” (iluminados).

 

Nos três primeiros séculos, o fato de alguém querer ser cristão já era sinal de autêntica conversão, pois significava assumir um risco de vida frente à possibilidade da perseguição. Após o Edito de Milão (313), muita gente acorreu à Igreja para se fazer cristão, nem sempre por convicção, mas por conveniência. A partir daí o catecumenato passa por uma nova estruturação, desenvolvendo-se mais as chamadas “catequeses mistagógicas”, das quais falaremos no próximo artigo.


 

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA

Mestre em Teologia Patrística e Professor de História da Igreja na PUC-Minas e ISTA.

15.05.2012