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Em artigo anterior escrevemos sobre o quão fundamentais são os processos de iniciação para a pessoa em sua vida no mundo, no qual foi chamado à existência. Anunciamos que trataríamos neste artigo, que o (a) leitor (a) ora lê, sobre a importância da iniciação cristã para a vida cristã. E já podemos dizer com base nas observações gerais apresentadas em nosso escrito anterior: a iniciação é essencial à vida cristã.

 

Para ser cristão não basta ter fé e intuições cristãs, como se convencionou pensar em muitos meios na atualidade. A fé recebida e acolhida como um dom de Deus é só um primeiro momento a ser cultivado. A fé é um despertar para uma realidade nova, diante de uma palavra que nos convoca ao arrependimento, à conversão, à transformação da vida. A fé é, para quem por ela se sente arrebatado, um nascimento da consciência tocada pela presença de Deus. É uma abertura a uma mensagem, à boa notícia de Jesus em nossas vidas. O homem e a mulher sensibilizados pela fé cristã precisam da iniciação, caso contrário permanecerão na vagueza de um sentimento pessoal, belo, porém sem um alicerce sobre o qual apoiar-se, até esvaziar-se na multidão das referências multiculturais da contemporaneidade.

 

É insuficiente sentir-se também munido de uma filosofia cristã para ser cristão. Já é bem comum escutarmos pessoas que se sentem à vontade e se declaram cristãs por assumirem princípios evangélicos. São “cristãos” sem cristianismo. É evidente que tais pessoas merecem todo o respeito daqueles que professam a fé num contexto comunitário. Eles são um sinal da validade da mensagem cristã e, como bem lembrou Pe. José Comblin, em seu livro “O Caminho, ensaio sobre o seguimento de Jesus”, o seguimento de Jesus é vivido dentro de uma religião, mas é sempre superior a ela. Há de se ressaltar, porém, que essa adoção da mensagem cristã como filosofia vem misturada, muitas vezes, na sopa de outras filosofias, sendo uma entre outras na síntese pessoal do indivíduo. Essa tendência assume o Evangelho, em alguns casos, como ideia. No início de seu pontificado com a carta encíclica Deus Caritas Est, o Papa Bento XVI, no sentido diverso dessa tendência, afirma “No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, assim, o rumo decisivo” (Deus Caritas est, n° 1).

 

Pois é bem para além de uma fé calcada só no subjetivismo e de um cristianismo com tonalidade intelectualista que caminha a iniciação à vida cristã. A iniciação cristã irá proporcionar, essa é a pretensão, embora com clareza dos nossos limites enquanto comunidade cristã, um encontro sempre maior, mais profundo com a Pessoa de Jesus. É uma inserção no seguimento do Mestre, pelo qual se encontra o sentido da própria vida. Esse sentido é sempre oferecido por Ele no contexto comunitário e não é um arranjo pessoal. O horizonte salvador e libertador do Mestre é mais do que a construção pessoal de um sujeito. Acontece no diálogo, sem atropelo da liberdade humana, no encontro, mas dentro do discipulado. Por isso, demanda o caminho da iniciação. Nele se fará uma opção mais clara por esse horizonte de sentido oferecido por Jesus.

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Num sentido profético, diametralmente oposto ao individualismo corrente, a iniciação cristã aponta para a vida em comunidade, para a Igreja, assembleia daqueles que creem. O encontro com o Senhor leva aos encontros. Na comunidade de fé somos chamados a nos encontrar, dentro de uma mesma fé, no exercício da caridade e vivermos na experiência da esperança invencível da ressurreição. É da estrutura mesma da fé cristã a vocação a vivermos em comunidade respondendo o convite amoroso de Jesus (Mateus 4,18-22) para sermos um povo aberto e inclusivo, universal. Nesta caminhada a vida sacramental irá marcar os passos desse aprendizado, como consequência e alimento espiritual, e nunca como fim.

 

Este povo de virtudes teologais, de vida na fé, na esperança e na caridade se apresenta ao mundo como Igreja Samaritana, a serviço do seu Senhor. Aqui a iniciação é missão. Se verdadeira, a iniciação cristã apaixona o iniciado e faz dele discípulo-missionário. Ela se apresenta sob duplo aspecto. A iniciação é missionária para responder aos desafios modernos de sede de Deus e missionária por constituir discípulos-missionários. E estes se encontrarão, agora, com o Senhor preso, nu, doente, faminto, imigrante, sem-terra, sem-teto, com o povo crucificado (Mateus 25, 31-46).

 



Por último, para parafrasear um grande teólogo, a iniciação à vida cristã ou será mística ou não será iniciação à vida cristã. Nenhum dos elementos apresentados são passiveis de se tornarem burocracia. A iniciação à vida cristã é uma questão essencial a cada cristão e só se faz no seguimento de Jesus.

 

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira

Comissão Bíblico-Catequética da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG.

02.05.2012