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 3. A INSPIRAÇÃO CATECUMENAL

(continuação do artigo anterior) 

Por isso é preferível falar de uma (re)iniciação com “inspiração catecumenal[1], que contemple os elementos essenciais do catecumenato primitivo como iluminadores de novos itinerários ou mesmo de adaptação das experiências já bastante ricas que temos, mas que podem assumir um estilo mais iniciático. 

Mas, que elementos são esses? O que podemos aprender com as primeiras comunidades e experiências cristãs? Em que o catecumenato primitivo pode nos inspirar? Estas perguntas não têm respostas acabadas. A reflexão atual da Igreja, também no Brasil, tem apontado pistas bastante interessantes para iluminarmos nossa catequese, especialmente com adultos, aos quais todos os esforços devem ser envidados, visto serem eles os destinatários prioritários da ação evangelizadora da Igreja.  Podemos citar alguns desses elementos: 

a)      Passagem de uma catequese sacramentalizadora para uma catequese evangelizadora

Enquanto insistirmos numa catequese com finalidade somente sacramental, “para” a primeira Eucaristia ou Crisma, ou nos tradicionais e inócuos “cursos” de batismo e para noivos, não daremos conta de uma realidade muito mais ampla que nos desafia e questiona: uma multidão de pessoas que busca e necessita de um encontro com a Boa Notícia da Vida e do amor, de uma experiência com o Cristo que possa ser-lhes suporte durante a vida inteira, numa fé madura e comprometida com o Reino. Se o foco for apenas sacramental, a maior parte das pessoas continuará à margem da vida eclesial, por não se enquadrar em nossos critérios e “pacotes” canônicos e pastorais! Isso não significa que os Sacramentos não tenham o seu lugar, mas este não será o de meta ou ponto de chegada![2] A descoberta da pessoa de Jesus, a acolhida e o convívio com os irmãos na comunidade, os apelos fortes que brotam da Palavra para uma vivência coerente com a fé, o testemunho dos cristãos comprometidos com o Reino contagiarão as pessoas em processo de iniciação, de modo que os sacramentos serão buscados na hora certa - a hora da consciência de cada pessoa! - e vivenciados não como conveniência, mas como adesão ao projeto de Jesus Cristo. “O sacramento é uma consequência de uma adesão à proposta do Reino, vivida na Igreja. Nosso processo de crescimento na fé é permanente; os sacramentos alimentam esse processo e têm consequências na vida”.[3] 

b)     Cristo como centro e referência da catequese 

Apresentar a pessoa de Jesus, sem maquiagem e fundamentalismos, como sentido máximo para a vida, muito além da Instituição, é fundamental! Proporcionar o encontro com Ele e a experiência do seu amor...Isso exige uma catequese mais “enxuta”, voltada para o essencial, despojada de tantos conteúdos e temas que podem ser compreendidos ao longo de toda a vida cristã. É importante ter a clareza de que não é necessário “congestionar” a catequese inicial, seja com crianças ou adultos, com uma quantidade exagerada e sem prioridade de conteúdos. Supõe-se que a catequese permanente seja um caminho até o final da vida, no qual um conhecimento sistemático e progressivo das questões relativas à fé vá acontecendo paulatinamente. “Recordamos que o caminho de formação do cristão, na tradição mais antiga da Igreja, ‘teve sempre caráter de experiência, na qual era determinante o encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas’”.[4] Cabe-nos, ainda, alertar para o risco de experiências equivocadas propostas por setores mais intimistas e alienados da própria Igreja, que dissolvem a espiritualidade cristã na busca de um Cristo etéreo e descomprometido com a realidade, experiências estas que não contemplam o Jesus de Nazaré, o Cristo histórico, Deus que assumiu nossa carne e armou sua tenda entre nós.[5] 

c)      O papel fundamental da comunidade cristã

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A comunidade está ausente dos nossos atuais itinerários catequéticos. Não podemos nos esquecer de que ela é fonte, conteúdo, agente e ponto de chegada do cristão iniciado e maturo no testemunho cristão[6]. É ela que acolhe, motiva, ajuda e testemunha a fé no cotidiano dos iniciandos em processo de educação da fé. A tarefa iniciática não é responsabilidade somente do catequista, mas de toda a comunidade cristã, a começar pelas suas lideranças. “Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização dos homens e mulheres em cada ambiente”.[7] Formar comunidades acolhedoras e comprometidas com o Reino é condição indispensável para que todo itinerário de iniciação dê frutos. “Onde há uma verdadeira comunidade cristã, ela se torna uma fonte viva da catequese, pois a fé não é uma teoria, mas uma realidade vivida pelos membros da comunidade”.[8] Para que a Iniciação Cristã não se torne uma pastoral a mais, entre tantas outras, mas uma ação conjunta das forças vidas da Paróquia, faz-se necessária uma Pastoral Orgânica[9] que reflita, planeje e assuma a coordenação e avaliação de todo o processo.

d)     A interação Catequese-Liturgia[10] 

No início do cristianismo não havia compêndios e livros catequéticos. Rezava-se o que se acreditava. Acreditava-se no que se rezava.  A liturgia era e precisa continuar sendo formadora e educativa do cristão, ainda que sua natureza seja celebrativa e não discursiva. O jeito de celebrar, os elementos simbólicos e rituais, a Palavra e boas homilias formam eficazmente o cristão. “Há uma relação íntima entre a fé, a celebração e a vida. O mistério de Cristo anunciado na catequese é o mesmo que é celebrado na liturgia para ser vivido”.[11] A pessoa em processo de iniciação cresce com um olho no altar e outro na vida. A liturgia ajuda a guardar e assumir profundamente o que foi descoberto na caminhada. Assim, as celebrações têm por finalidade “gravar nos corações dos catecúmenos o ensinamento recebido quanto aos mistérios de Cristo e a maneira de viver o que daí decorre (...); levá-los a saborear as formas e as vias de oração; introduzi-los pouco a pouco na liturgia de toda comunidade”.[12] 

Isso requer uma catequese mistagógica. Mistagogia vem de duas palavras gregas: 'myst ' e 'agogein'. É uma palavra que indica uma prática muito antiga, bastante valorizada atualmente e significa guiar, conduzir para dentro do mistério. Está intimamente ligada à ação ritual, que nos insere na vida do Cristo, nos converte e nos mobiliza à transformação da nossa própria vida. Aí entram a familiaridade com os símbolos, os ritos, com a experiência orante,  com a Sagrada Escritura e o aprofundamento teológico, que culmina no encontro pessoal com Jesus Cristo, no momento atual, existencial de nossa vida pessoal, comunitária, social. “A mistagogia nos leva a uma conversão da interioridade, uma adesão existencial à pessoa de Jesus Cristo e não apenas intelectual ou moral. E esta adesão nos leva a uma atitude ética, um modo de vida de acordo com o evangelho de Jesus Cristo.”[13] 

 (termina na próxima edição)  

Pe. Vanildo Paiva

Especialista em Catequese e Liturgia e Professor do IRPAC

01.08.2012

  


[1] Cf. Diretório Nacional de Catequese, n. 35-50

[2] Cf. Estudo 97 da CNBB, n. 55-57

[3]  Diretório Nacional de Catequese, n. 50

[4] Documento de Aparecida, n. 290 – Grifo em negrito nosso

[5] Cf Jo 1,14

[6]  Cf. IV parte do Documento Catequese Renovada

[7] Documento de Aparecida, n. 171

[8]  Diretório Nacional de Catequese, n. 52

[9] Cf. Estudo 97 da CNBB, n. 28 e 146-147

[10] Uma boa referência para uma compreensão mais ampla dessa interação pode ser encontrada no livro “Catequese e Liturgia: duas faces do mesmo Mistério, de minha autoria. Paulus, 2007

[11]  Diretório Nacional de Catequese, n. 119

[12]  RICA – Ritual de Iniciação Cristã de Adultos, n. 106

[13]  Ione Buyst no blog na Dimensão Bíblico-catequética: www.http://catequeseebiblia.blogspot.com, acessado em 26.03.2011