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A experiência mística, no cristianismo, é a experiência do Deus encarnado. Essa é uma grande contribuição que a mística cristã tem para dar hoje em tempos de grandes mudanças e paradigmas, inclusive para a espiritualidade. Experimentar a vida centrada na vida do Deus Encarnado é também um grande desafio para o Cristão de hoje.

Confessar com a boca e o coração que o Verbo se fez carne e o Espírito foi derramado sobre toda a carne implica buscar a experiência e a união com Deus, que assim desejou comunicar com a humanidade. Desse modo, com a encarnação de Jesus Cristo foi feita uma aliança indissolúvel entre o Espírito e a Carne e, desde então, todos os caminhos do Espírito passam pela Alteridade Encarnada, lugar onde se torna possível experimentar a Alteridade do Verbo Encarnado.

A vida no Cristo nos convida a todos a vivenciá-la de forma autêntica na relação com os irmãos, na caminhada do cotidiano. Muito temos que aprender. Segundo o Papa Francisco, é preciso ter coragem de encontrar nova carne para a transmissão da Palavra, e isso é um desafio lançado na exortação “Evangelii Gaudium“.

Para bem viver a fé, hoje, somos convocados a estar atentos às exigências da nossa realidade e procurar viver o “sensus fidelium” que é o porta-voz legítimo da vontade de Deus e ocupa seu lugar ao lado da Bíblia, da Tradição e do Magistério. Assim, olhar para a realidade, enxergar o belo que lá existe, escutar a voz do povo e descobrir o que Deus nos tem a dizer.

Falando da beleza da nossa realidade no processo de evangelização, todos, mas especificamente, nós catequistas necessitamos saber, agora, como levar nossa catequese a experimentar o belo, procurando conhecer melhor o nosso espaço, ambiente, os símbolos, as imagens que se encontram no entorno da nossa existência, interpretando-as, a Bíblia, a liturgia etc.

Para falarmos do que é belo, vamos reler um artigo da catequista, nossa Matriarca da Catequese de Belo Horizonte e do Regional Leste II, Inês Broshuis, que muito nos ensinou e continua a nos ensinar por meio de seus escritos, a arte de caminhar, trilhando os caminhos que nos colocam nos passos de Jesus. Segundo ela:

A primeira condição é que a própria catequista saiba distinguir o que é verdadeiramente belo. Ela deve sentir-se constantemente maravilhada pela beleza da natureza, do ser humano e seu dom criativo e artístico. Ela deve sentir-se atraída para o silêncio e a contemplação, procurando o encontro com Deus, o grande Artista da criação. A catequista não vai poder transmitir o que ela mesma não tem. Por isto, deve desenvolver em si o dom de admirar, de maravilhar-se. Cada encontro catequético visa levar à experiência de Deus.

Para criar em nossa Catequese um ambiente que favoreça o silêncio, a admiração e a contemplação, seguem algumas orientações práticas.

1. O espaço
Quando entramos numa igreja bonita, o próprio ambiente nos leva ao silêncio: a ornamentação, a luz que passa pelos vitrais, algumas imagens de bom gosto, a luz do sacrário… Tudo ajuda a nos silenciar e rezar. Muitos não percebem nada disto. Logo caem na conversa. Para saborear o BELO, precisa-se ficar em silêncio.

Também o ambiente da nossa catequese deve levar à interiorização. Mas, em geral, não temos espaço apropriado. Uma sala de aula, por exemplo, não favorece a caminhada para o silêncio e a oração. Até os centros comunitários das paróquias não contribuem para se criar um ambiente onde se sinta o “sagrado”.

Mas, não tendo outra escolha, devemos preparar, de antemão, o ambiente e, para isto, estar lá 15 minutos, meia hora, antes de começar. A sala esteja limpa, algum cartaz bonito sobre o tema a tratar. Retirar os cartazes deixados por outros grupos, se não têm nada a ver com o assunto do nosso encontro. Coloquemos uma mesinha com toalha e alguma flor ou planta bonita, natural (!), uma estante para a Bíblia, com uma vela, cadeiras em círculo…

A própria catequista faz parte deste ambiente. Dizem que ela se comunica com: 70% pela postura, 25% pelo tom de voz e 5% pelo conteúdo. Exige-se da catequista postura, vestes e atitudes dignas. A voz muito alta irrita. Precisa-se falar baixo, mas com boa articulação.

2. O silêncio
O contrário do silêncio é o barulho, a bagunça, a agitação, a desordem, o desequilíbrio.

Podemos criar o silêncio através de alguns exercícios. Pedir à turma que fique em silêncio observando os sons e barulhos que ouvem de fora. Também podem ouvir uma música suave ou cantar um mantra. Há muitos mantras conhecidos e também podemos escolher um refrão de um canto. A primeira vez canta-se normalmente, depois se repete o mesmo, cantado mais baixo; na terceira vez, canta-se quase só murmurando. É bonito e acalma o espírito. Além disso, ensina a cantar bonito, sem gritaria, uníssono. Não se esqueçam: o canto é uma das artes que elevam o espírito até Deus. Faz parte do BELO na Catequese.

Refletindo: Como podemos melhorar o nosso ambiente catequético para que leve ao belo e ao silêncio?

3. Gravuras e imagens
Tenhamos senso crítico quanto às gravuras que usamos na Catequese. Que tenham valor artístico. Evitemos gravuras com muitos detalhes que distraem mais que concentram a atenção. Quando nós mesmos fazemos os cartazes, que sejam com textos curtos (poucas pessoas leem textos longos), com letras bem feitas. Às vezes, precisa-se pedir a ajuda de alguém para fazer um cartaz bonito.

Muita atenção com imagens ou gravuras de Jesus. Jesus não foi um homem branco, com olhos azuis e cabelos anelados. Ele era um oriental com traços característicos da sua raça e com o modo próprio de se vestir. Apresentemos um Jesus viril. O mesmo se pode falar de imagens e gravuras de Nossa Senhora: uma bela mulher judia!

Cuidado com imagens de Deus ou da Santíssima Trindade. A própria Bíblia proíbe fazer imagens de Deus, não só por respeito, mas também porque não se pode fazer um a imagem verdadeira de um ser que é espírito.

Refletindo: Que tipos de gravuras e imagens estamos usando na Catequese. Procuramos, realmente, formar o senso do belo e do místico?

4. Símbolos
Símbolos são objetos que transmitem a experiência de uma realidade interior mais profunda do que o objeto apresenta à primeira vista. Uma rosa simboliza o amor ou a amizade; um retrato de um falecido representa a pessoa quando era ainda viva; o pão simboliza o alimento necessário para o ser humano; uma pedra pode simbolizar os obstáculos que se encontram na vida… Pode-se aprofundar ainda mais o símbolo, revelando um sentido religioso: o pão simboliza a Palavra de Deus, ou a Eucaristia; uma vela simboliza a fé, a Luz de Cristo; a água lembra a água do batismo; e assim por diante.

É muito importante trabalhar com símbolos. Tudo pode servir como símbolo. O sentido do símbolo depende da experiência de vida ligada ao objeto. Entendendo melhor os símbolos, entender-se-á melhor os símbolos usados na Liturgia: água, vela, pão, vinho, óleo, incenso…

Refletindo: Usamos símbolos na Catequese? Quais? Eles ajudam a aprofundar a experiência religiosa?

5. A beleza da Bíblia
A Bíblia é um livro cheio de poesia e linguagem simbólica que pode inspirar a catequese e a oração, como os Salmos (8, 19, 131, 139…) Há lindos textos de Isaías e outros profetas, de Paulo e de São João, que podem ensinar a orar a partir da Palavra de Deus. Também há lindas poesias e textos fora da Bíblia que podem ser grande inspiração.

Na Catequese não pode faltar a formação para a oração. Se aí não se aprende, onde se vai aprender? Podem ser orações de fórmulas, oração espontânea, celebrações…

Experimentando: Vamos ler, com toda atenção, o Salmo 19. Onde está a beleza da poesia, da linguagem simbólica? Como ajuda a rezar?

6. A Liturgia
A Liturgia é a escola da beleza: espaço, vestes, silêncio, música, imagens, Bíblia, símbolos, expressão corporal, gestos… Vamos olhar a realidade das nossas igrejas paroquiais, ponto por ponto. Mostram o belo que eleva o espírito?

Procurem, em grupos, orientados pela coordenação, aprofundar os pontos acima abordados para que possam ajudar a tornar a Catequese mais bonita, mais profunda, uma verdadeira experiência de Deus.

(Livro: O Belo, o lúdico e o Místico na catequese. Regional Leste 2. Belo Horizonte: FUMARC 2017). 

 

Neusa Silveira de Souza

Secretariado Bíblico-catequético de BH