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Nesta semana, com grande alegria, estou em Belo Horizonte para conduzir a disciplina de Pastoral na era digital do curso de Especialização “Pastoral numa igreja em saída”, da FAJE. Acredito que vale a pena fazermos uma breve reflexão sobre este tema que abrange também a catequese. Pastoral, explicando de maneira simples, é a ação da Igreja no mundo que dá continuidade à ação e missão de Jesus Cristo, em vista do Reino de Deus. A catequese é uma dessas iniciativas do povo de Deus com o objetivo último de evangelizar. Entretanto, antes de agir, é preciso ser, entender o que está acontecendo na realidade contemporânea, renovar e reconstruir nossa mentalidade e visão de mundo para uma ação mais efetiva, que diga algo de valor e toque a vida das pessoas. Como Bento XVI ensina: “O fazer é cego sem o saber, e o saber é cego sem o amor”. 

O segredo para um agir pastoral mais efetivo está na vivência autêntica e equilibrada destes três substantivos: o fazer, o saber e o amor. Já dizia São Tiago: “A fé sem obras é morta” (Tg 2, 20). São João Evangelista também advertia: “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor” (I Jo 4, 8). E ainda: “A vida se manifestou nós a vimos e a testemunhamos” (I Jo 1, 2). O agente de pastoral deve viver e encarar a realidade com os pés no chão e de preferência com os pés em movimento. Nossa evangelização não pode ser movida apenas por impulsos e moções espirituais. É preciso realizar um diagnóstico criterioso da realidade, sair do território paroquial, ver com os próprios as cruzes e alegrias cotidianas. 

Nesse sentido, nossa espiritualidade deve ser encarnada nas nossas ações, como expressa Teilhard de Chardin na obra “Hino do Universo”: “Senhor, mais uma vez nestas estepes da Ásia não tenho pão, nem vinho, nem altar, então [...] vos oferecerei, eu, o vosso sacerdote e sobre o altar da terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo”. Deus se manifesta no cosmos, na realidade humana em todos os níveis e esferas globais, sociais e pessoais. Destaca-se, assim, a importância do método “ver, julgar e agir”, contemplado no método ciberteológico de Antonio Spadaro: “experiência, reflexão, ação e avaliação”. É importante esse acréscimo, avaliar nossas ações.

Aprendi com uma professora da Escola de Humanidades da PUCRS, Leda Lísia Franciosi Portal, que o ser pessoa vem antes de ser professor e que aquilo que nós somos e que foi nos constituindo ao longo da vida vai nos dizer que tipo de professor nós somos. Este é um ensinamento que vale para os agentes de pastoral, catequistas, padres, religiosos, leigos, pais, mães, todo o povo de Deus, todas as funções exercidas na sociedade. Isso significa que antes de querermos formar alguém precisamos ser formados, antes de querer curar alguém, precisamos ser curados, antes de querer evangelizar alguém, precisamos ser evangelizados. Jesus fez várias correções fraternas nesse sentido: “médico, cura-te a ti mesmo” (Lc 4, 23) e ainda “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’, entrará no Reino dos Céus” (Mt 7, 21). Isso não quer dizer que precisamos estar prontos e termos certeza de tudo para podermos fazer alguma coisa pelos outros e pelo mundo, pois se não, nunca faremos nada. Na verdade, significa termos a humildade de reconhecer que estamos partilhando dessa mesma busca por completude e comunhão com Deus.    

A era digital que se caracteriza por uma superexposição da vida, ou melhor, por uma vida hipercomunicativa, exige autenticidade, transparência e testemunho pessoal muito maiores. O evangelizador atual não pode falar da boca para fora, precisa professar somente aquilo que realmente vive e buscar viver aquilo que realmente crê. Portanto, não se pode passar uma imagem utópica de uma vida perfeita que, de tão perfeita, chega a parecer desumana e artificial, se não, a vida do evangelizador passará por falsa. Às vezes, o evangelizador precisa expor um pouco das suas dificuldades para mostrar que é humano, que erra, mas que busca verdadeiramente fazer o que Jesus nos ensinou. Mostrar que passamos pelas mesmas dificuldades, que compartilhamos os mesmos desafios torna as pessoas mais próximas. Temos que ter prudência também para não expor em demasia a nós e, principalmente, a outras pessoas, publicar somente aquilo que pode edificar e servir de exemplo de superação.

Pierre Lévy diz que a cultura expressa o desejo de construir laços sociais e que as novas formas de comunidade contemporâneas são fundadas no compartilhamento de realidades, saberes e interesses em comum, na aprendizagem cooperativa e processos abertos de colaboração. “O apetite para as comunidades virtuais encontra um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais são os motores, os atores, a vida diversa e surpreendente do universal por contato” (LÉVY, 2000, p. 130). Então, quem é meu próximo hoje? Àquele que eu permito que se aproxime, que tenha parte comigo, independente do espaço e do tempo em que habita. Por isso, o testemunho e as narrativas de histórias reais são hipervalorizados na sociedade em rede. 

Pastoral na era digital seria esse esforço por rever nosso mundo, nossa fé e nossas relações sob o prisma deste novo contexto e nova cultura digital que permeia o nosso dia-a-dia e que afeta profundamente nosso ser, pensar e agir. Partindo da experiência pessoal da fé e da rede, propõe-se fazer a experiência da fé na rede e o que a experiência relacional on-line implica na vida de fé como um todo, inclusive off-line. O passo seguinte é refletir sobre as experiências vividas e avaliar nossas ações evangelizadoras.

Só será possível entender a fé de forma plena quando se compreender as questões que o mundo coloca para a própria fé. Dessas novas perspectivas, surge a necessidade de um novo campo teológico que dê conta de tal estudo, a ciberteologia, a qual nós já mencionamos em posts anteriores. Pensar como mostrar às gerações digitais a importância da fé em um certo homem chamado Jesus, que nós cristãos acreditamos ser Deus, que viveu há dois mil anos atrás numa época, cultura e mesmo religião tão diferente da que vivemos, é o desafio que está de fronte a todo agente de pastoral, catequista e evangelizador hoje. 

Por trás de nossas ações pastorais, além do nosso ser pessoal, está também nossa concepção de Igreja. Sobre isso, vamos conjeturar juntos no próximo post, aguardem...  

Aline Amaro da Silva

Jornalista e especialista em Ciberteologia e Cibergraça

Julho 2017

 

Referências:

LÉVY, Pierre. Cibercultura. 2.ed. São Paulo: Editora 34, 2000.

TEILHARD DE CHARDIN, Pierre. Hino do Universo. São Paulo: Paulus, 1994.