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(Marcos 1, 21-28, Evangelho do 4.º Domingo do Tempo Comum)

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Estavam maravilhados com o seu ensinamento. O deslumbramento, essa experiência feliz que nos surpreende e desconstrói os esquemas, que se introduz como lâmina de liberdade em tudo o que nos oprime: rumores, palavras, processos mentais, hábitos, que nos faz entrar na dimensão da paixão, que é capaz de mover montanhas.

Resgatemos o deslumbramento, a capacidade de nos encantarmos de cada vez que encontramos alguém com palavras que transmitem a sabedoria do viver, que tocam o coração da vida porque nascem do silêncio, da dor, da profundidade, da proximidade da sarça ardente. A nossa capacidade de experimentar alegria é diretamente proporcional à nossa capacidade de nos deslumbrarmos.

Jesus ensinava como alguém que tem autoridade. Autorizadas são apenas as palavras que alimentam a vida e a fazem florir. Jesus tem autoridade porque nunca está contra o ser humano, mas sempre a favor dele, e sabe-o algo no interior de quem o escuta. Autorizadas e verdadeiras são apenas as palavras tornadas carne e sangue, como em Jesus; a sua pessoa é a mensagem.

Como emerge do excerto que se segue: Havia um homem possuído por um espírito impuro. O primeiro olhar de Jesus repousa sempre na fragilidade do ser humano, e a primeira de todas as pobrezas é a ausência de liberdade, como para um homem «possuído», prisioneiro de alguém mais forte que ele.

E vemos como Jesus intervém: não faz discursos sobre Deus, não procura explicações sobre o mal, antes mostra Deus que se imerge nas feridas do ser humano; é Ele mesmo, Deus, que se imerge, como cura, na vida ferida, e mostra que o Evangelho não é um sistema de pensamento, não é uma moral, mas uma admirável libertação.

Ele é o Deus chamado liberdade e que se opõe a tudo o que aprisiona o homem. Os demónios dão-se conta: o que há entre nós e Tu, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sim, Jesus veio para arruinar tudo o que arruína o homem, veio para demolir prisões; veio trazer espada e fogo para cortar e queimar tudo o que não é amor. Veio para arruinar o reino dos desejos equivocados que se apoderam e devoram o homem: dinheiro, sucesso, poder, egoísmos.

A esses, que dirigem os corações, Jesus diz apenas duas palavras: cala-te, sai. Como sonhou Isaías, que as espadas se transformem em arados, que se quebre a concha e apareça a pérola. A pérola da criação é o homem livre e amante. Posso tornar-me assim, também eu, se o Evangelho for para mim paixão e encanto. Padecimento e parto. Então descobrirei «Cristo, minha doce ruína» (Turoldo), que arruína em mim tudo o que não é amor, que dos meus braços liberta todas as coisas vazias e dilata os horizontes que respiro.

 

Ermes Ronchi 
In "Avvenire" 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins