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Para dizer a minha conversão tenho várias analogias. A primeira é com o conto A metamorfose, de Franz Kafka, em que Gregor Samsa, personagem principal, acorda em forma de inseto gigante virado para cima com o patrão a bater à porta furioso pelo indesculpável atraso.

A conversão é algo profundamente corporal. Não é só a alma que se modifica estruturalmente; também a carne rebenta em palavras e gestos estranhos de um corpo maior que o nosso. Converti-me na adolescência. A lembrança dessa metamorfose cruza-se assim com a memória da acne que era aborrecida, embaraçosa, símbolo máximo do meu estado transitivo e, por isso, de certo modo, pascal. O já distante dia da minha conversão foi o dia da inauguração da minha vida. É o coração da minha história. Ele é um ontem pegajoso, de doce e firme claridade, a pulsar na premência que faz com que este dia, entre todos, seja o de hoje.

Na verdade, o convertido quer comprovar a si próprio que se converte, como quem pede para ser beliscado numa circunstância inacreditável. A si próprio exige uma prova, uma penhora de si o mais material possível, uma rutura radical. Uma vida diferente na qual falte definitivamente algo valioso. Explica-se assim a irmandade entre o convertido e o pobre: por vontade ou por inevitabilidade, ambos suspendem o fascínio pela matéria e se refundam com a marca da sua falta.

A segunda analogia é a do vulcão. A conversão é um momento eruptivo do passado em que quem se converte decidiu e foi decidido. A lava que se expele desse microssegundo de brutal viragem transforma-se no novo país pessoalíssimo em que se passa a viver. A breve memória do consentimento cristaliza-se num território vital. Como um trauma dócil, um acidente bom, uma queda do cavalo que nos deixa com as feridas que se fizeram em nós e que nos são.

O convertido é perturbado pela sensação de ser desadequado ao mundo. Vive em tensão com uma consciência também ela nômade de imperativo falhado em imperativo falhado, com um Big Brother que lhe diz instantemente: «Estás a esquecer o teu nome». A propósito, converter-se é passar a ter um nome outro, assinalado como ferrete em carne de gado. Um nome pago com discussões familiares, com risos no corredor da escola, com uma coleção de olhares de estranheza sobre si, na dor de se ter uma fé impossível de higienizar. Para mim, foi passar a chamar-me mais «cristã» que Cátia.

A terceira e última analogia estabeleço-a com o filme Instantes Decisivos (ou Sliding Doors, de Peter Howitt, estreado em 1998). Helen, personagem principal, acaba de ser despedida e dirige-se para a estação de metro. Aí o enredo desdobra-a em duas: uma Helen que apanha o metro, chega a casa e encontra o namorado com outra mulher; e outra Helen que perde o metro e passa por um conjunto de outras peripécias não tomando conhecimento da traição.

Conversão tem a ver com «versão». É a escolha de uma versão de si e da vida. É fazer a experiência de ver passar ao seu lado a pessoa que se podia ter sido e que não se foi. E se esta atração por Jesus não tivesse incubado como um vírus que não deixa pedra sobre pedra, ideia sobre ideia, sonho sobre sonho? De repente, tem-se os medos e as prioridades trocadas. E vive-se no avesso das coisas, no seu lado de dentro e no seu lado alto. E muda-se de casa para um miradouro que é demasiado elevado para os nossos pequenos olhos.

O mundo torna-se um extenso e intenso museu que Deus dispõe e reatualiza diariamente, numa exposição de coisas belas que parece visível só para o próprio. Mas o mundo é ao mesmo tempo uma sala de espera vazia por aquele que ainda não veio, e o luto por tudo o que entretanto acontece de triste, à custa de tanta desistência do seu amor. O convertido é um irreconciliado com as suas incoerências, por tudo lhe saber a demérito comparado com aquele grande encontro, pela suspeita constante de estar a trair esse «agarramento» do coração.

A conversão não faz um alisamento às interrogações mas é o préstimo de uma angústia que em Jesus aprende a ser amada e amante. Vive-se na urgência de concretizar o programa desse «sim» que não foi propriamente dito, mas que se disse em nós e que nos disse a nós.

O convertido é alguém que diariamente tenta disfarçar a sua loucura, civilizar o aguilhão de luz que o assola desde aquele dia. Aquele dia em que acordou num outro rosto e num outro corpo. Aquele dia em que o vulcão eclodiu, e lhe deu uma morada impermanente ao expulsá-lo de si próprio. Aquele dia em que perdeu o metro para sempre, e com ele, a versão mais banal ou expectável de si; aquela que era para ser. Aquele dia em que Jesus veio, permaneceu e se tornou o seu único bem.

Cátia Tuna

31.07.2019

In: opontosj