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VENI SANCTE SPIRITUS

Vem, Espírito de Deus
vem como uma noite de fogo
e acorda o que em nós, na luz do dia, dorme

Vem, memória aberta, sobre o que acontece
e cumpra-se o que às nossas pobres visões presentes falta

Vem, memória da casa, de corpo não enclausurada
e que se desloque quando nos movamos

Vem, motor do devir, que deixa a cada um o seu crescimento,
a sua diferença e a sua desordem

Vem, deslocação da estância, negação da estatística e do algoritmo,
que nos ensina a ordem através do ruído
e que só na mobilidade encontras o repouso

Vem, força de Deus, deslocação do ponto fixo,
da casa murada e fria e defendida:
que um terremoto faça tremer a língua e estremecer o corpo
que não é neutro nunca se o calor o habita

Vem, sabedoria, dizer à nossa vida que o racional é lacunar,
efeito de margem, e só há saber das ilhas
vem ensinar à nossa vida a finitude
e que recebamos sem êxtases inúteis nem cegueira
o invisível que em nós trabalha o barro

Vem, amor derramado em nossos corações,
vem lembrar que um coração frio
não pode compreender uma palavra de fogo
e que só há vida e piedade e coragem porque o amor nos move

Vem, instante de fogo e de ternura,
alegria sem medo do ilimitado do corpo e do ilimitado do dom
que invocamos neste fim de tarde
e que nos ensinas a rezar

José Augusto Mourão, OP

(In, “O Nome e a Forma”, Pedra Angular, 2009)