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Não é o mesmo trabalhar com adolescentes e jovens. Adolescentes podemos considerar os teens: 13 a 19 anos. Depois disso, temos os jovens: 20 a 25 anos. Alguns estendem essa idade até os 30 anos.

A catequese de crisma lida com os teens (em alguns lugares com pré-adolescentes: 12 anos). E a maioria absoluta dos catequistas tende a ser adulta (alguns já na 3ª. idade), gente que esqueceu como era ser adolescente. E a Igreja Católica tende a ser uma comunidade de fé que olha para trás: como se a fé fosse uma coisa boa para o passado e do passado. Encaramos a tradição como coisa antiga a ser transmitida. A fé acaba sendo uma coisa antiga e desgastada, que não diz muito para quem vive hoje ou que acaba sendo uma relíquia de um passado antigo e longínquo.

Adolescentes tendem a ter o pensamento e a vida voltados para o futuro e para a vida que vem. Adultos e velhos tendem a pensar a vida como algo do passado a se lembrar. Não me espanta que a gente empolgue tão pouco os adolescentes e os jovens. Além disso, uma virtude básica de quem tem todas as possibilidades para frente é a capacidade de arriscar. Para os adultos, arriscar representa um perigo a ser evitado. Para os jovens, o risco deveria ser inclusive incentivado: é assim que eles podem experimentar novas situações, podem amadurecer e começar novos caminhos. Não é à-toa que a natureza tirou deles o medo excessivo de se arriscar e fazer diferente. 

Quem quiser trabalhar com adolescentes e jovens, além de uma fé firme e uma vida de oração (que deve ser compartilhada com eles), tem que gostar do risco e basear esse gosto na fé em Deus e na humanidade. Só quem de fato acredita em Deus tem capacidade de arriscar e fazer diferente. Mais: Jesus sempre disse aos seus Apóstolos “não tenhais medo, eu estarei contigo todos os dias sempre” (Mt 28,20). Temos a garantia de que Jesus não nos deixará fazer uma bobagem tão grande que não possamos consertar. Isso é fé em Deus e em si.

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Sem isso, nosso discurso não passará de um tom bom-mocista que leva todos a uma obediência servil que tem nada a ver com fé e muito a ver com ideologia de submissão.  Nem Jesus nem os Apóstolos foram gente servil: pelo contrário, Jesus morreu na cruz, o suplício público infringido aos subversivos do Império Romano. E muitos dos Apóstolos foram martirizados porque a sua fé lhes dizia que deveriam primeiro servir a Deus e não aos homens. (At 5,29) 

A fé precisa falar do futuro, gerar forças a partir da oração para pensar, fazer e viver em vista do Reino de Deus e de sua justiça. (Mt 6, 33) Tudo o mais virá por acréscimo, incluindo o gosto pela oração, pela Igreja e pela fé. Precisamos resgatar o risco de viver coerentemente em vista de uma fé que pode ser contracultural: Jesus nos desfia e não nos paralisa. Se for assim, Marx terá a sua razão em dizer que a fé é o ópio (anestésico) do povo. Com certeza, não foi pra isso que Jesus pregou o Evangelho do Reino, morreu na Cruz,  ressuscitou e deixou uma Igreja. Já na sua época, existiam muitos anestésicos para a consciência, não precisava de mais um. O trabalho da fé na pessoa é algo muito diferente e quando os adolescentes percebem isso, o gosto é outro e a fé tem outro sabor: porque fala para a realidade deles, o futuro com Deus e com sua força. 

Paulo F. Dalla-Déa

Padre e doutor em Teologia, membro da Sociedade Brasileira de Catequetas e da SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião.