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Cristão é quem crê que Jesus é o Cristo

 

O que caracteriza o cristão é que ele acredita em Jesus de Nazaré como sendo o Cristo (em hebraico, Messias, em português, Ungido). A isso, ele deve seu nome de cristão. Mas essa ligação entre o “ser cristão” e Cristo não é tão evidente quanto se poderia esperar. Num programa de tevê com entrevistas na rua foi feita a pergunta: “Que é, para você, ser cristão?” Apenas uma das pessoas entrevistadas mencionou Jesus Cristo em sua resposta. Todas as outras falaram em coisas gerais: ter fé, fazer o bem, ajudar as pessoas... Houve até quem respondesse ao que não foi perguntado, mas que estava presente em sua cabeça: “Todas as religiões são boas”...

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Ser cristão implica fundamentalmente a fé naquele que é chamado o Cristo, ou Messias: Jesus de Nazaré. Sem a fé no Cristo, ninguém pode ser chamado cristão. Porém, é preciso considerar o que significa Cristo ou Messias na mentalidade do povo de Jesus, o que o povo entendia por “esperar o Messias”. E depois deve-se ver em que sentido esse conceito foi aplicado a Jesus de Nazaré por aqueles que são chamados de “cristãos” e o que isso significa para a compreensão do ser humano.

 

O que significa crer em Jesus de Nazaré como sendo o Messias ou Cristo torna-se compreensível quando se conhece a tradição transmitida de geração em geração no povo do qual ele nasceu e que se encontra “na Lei e nos Profetas”, ou seja, nas Escrituras. Estas veem o ser humano como coroação da obra criadora de Deus, mas também como ameaçado e ferido pelo pecado, pelo orgulho que se opõe ao plano de Deus. Contudo, Deus conduz a humanidade à reconciliação e à paz, especialmente por seus “eleitos”: Noé, Abraão, Jacó-Israel e o povo de Israel, conduzido por Moisés.

Nesse desígnio de Deus, nesta “Aliança”, o servo de Deus e Ungido por excelência era Davi. Pela boca do profeta Natã, Deus lhe prometeu uma realeza que duraria para sempre. Por isso, quando a casa de Davi desapareceu no tempo do exílio babilônico, surgiu a expectativa de um novo Ungido.

Os cristãos são, então, os que crêem que Jesus de Nazaré foi aquele que, na terminologia do povo judeu, era chamado o Ungido (Messias, Cristo). Mas não o foi no modo como o povo o imaginava. Jesus, depois de participar do movimento de renovação lançado por João Batista, se pôs a anunciar a proximidade do Reino de Deus, entendido como a realização da vontade amorosa do Pai, que ele mesmo experimentou de maneira única. À luz dessa sua experiência, ele reinterpretava a Lei e os Profetas. Ensinava que o Messias não era um potentado, mas o Filho do Homem que veio não para ser servido, mas para servir e dar sua vida. Fiel até o fim à sua palavra e àqueles a quem a transmitiu, não recuou diante das ameaças que os poderosos lhe destinavam. Morreu na cruz como um criminoso. Mas, ressuscitando-o dos mortos, Deus mostrou que Jesus havia agido segundo sua vontade e é, sempre e de modo único, o seu “Filho”.

Jesus não foi o Messias do modo como o povo o esperava; ele foi o Messias inesperado. E ele é para sempre o Homem Novo, Adão passado a limpo, no qual a humanidade é reconciliada com Deus, o Pai.

A comunidade de Jesus: a história e a vida

Para que conservassem sua palavra e sua prática, Jesus chamou seus seguidores a formar comunidade: a Igreja. Enquanto animada pelo espírito de Jesus, ela se configurou como comunidade de amor fraterno e solidariedade material.

Para compreender uma instituição pode-se descrever como ela se desenvolveu desde suas origens até hoje. Olhando para história da Igreja, vemos a diferença entre o padrão fundamental e permanente da comunidade cristã e as formas circunstanciais que ela revestiu historicamente, especialmente na assim chamada “Cristandade” medieval e moderna, que está indo para o fim, sem que isso signifique o fim da comunidade cristã.

Depois de séculos de perseguição a Igreja tornou-se, por força das circunstâncias, a guardiã da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, um poder político: a Cristandade. Nessa configuração, a Igreja se identificava com a sociedade. Isso teve por consequência que muitos eram batizados, sem opção pessoal, apenas por razões sociais e culturais. Além disso, a Igreja enquanto instituição teve dificuldade em promover  reformas em seu próprio seio e teve de enfrentar a Reforma protestante e a emancipação política e cultural da sociedade moderna. Depois de uma reação exageradamente defensiva, a Igreja aprendeu, sobretudo com o Concílio Vaticano II, a ler os sinais dos tempos, a abrir-se ao sopro do Espírito e aos anseios do mundo e a entrar em diálogo com as perguntas da sociedade e da própria comunidade eclesial.

Por outro lado, pode-se descrever a estrutura e a vida da Igreja como aparece hoje e deve ser entendida na comunhão e participação ativa dos seus membros. Considerando o ser da Igreja cristã, dizemos que ela é a comunidade dos que aderem a Jesus como o Cristo, o Messias. Ela continua a vocação do “povo eleito”, agora, porém, reunido em Cristo Jesus, num corpo bem articulado e animado pelo Espírito que ele mesmo recebeu do Pai. Nesse corpo, os fiéis são incorporados pelos sacramentos da iniciação cristã: pelo Batismo com a profissão de fé em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; pela Crisma ou unção que significa a configuração com o Cristo, o “Ungido” do Pai; pela Eucaristia ou banquete fraterno, no qual Jesus se faz presente como alimento para a prática de nossa vida. Os outros sacramentos acompanham o caminho dos que, por essa incorporação, são qualificados como “cristãos”. Assim, tudo o que o cristão faz na vida é o “verdadeiro culto” que o povo cristão oferece a Deus. Os ministros ordenados estão a serviço de tudo isso, mas todos os cristãos conscientes devem dizer: “A Igreja somos nós”.

A vida do cristão: o caminho do amor fiel

A vida do cristão é a vida centrada em Cristo, mas, como a vida de Cristo era centrada no amor de Deus a ser repartido entre todos, também a vida do cristão estará a serviço desse plano de amor. 

Tal visão destoa da sociedade hedonista em que vivemos. Esta não gosta de ouvir falar em cruz e sacrifício, mas nos convida a gozar o máximo que pudermos, mesmo à custa dos outros. O cristão consciente, ao contrário, vê que o caminho de Jesus é o da doação da própria vida, quer vivendo, quer morrendo, como ele nos mostrou. Como qualquer pessoa sadia, o cristão não deseja o sofrimento nem para si nem para os outros, mas não se esquiva dele se é  por causa do amor e para que seus irmãos e irmãs na humanidade possam participar da plenitude da vida que Deus criou para todos.

Assim, a prática da vida cristã pode ser descrita como mística e ética. A mística é a contemplação de Jesus, pela qual a gente vê a própria vida em unidade com a de Jesus. “Para mim, viver é Cristo” disse São Paulo (Filipenses 1,21). A ética (ou moral) significa o modo de proceder em conformidade com os valores que orientam a comunidade cristã: os valores que Jesus nos ensinou por sua própria prática de vida. A vida cristã é seguir Jesus pelo caminho que ele trilhou, julgando a realidade como ele julgaria e agindo como ele agiria nas circunstâncias de hoje.

Para julgar e agir eticamente como Jesus é preciso tê-lo diante dos olhos: seu ensinamento, sua prática de vida. Não há ética cristã sem o momento místico, que nos faz ver a realidade de Deus que transparece em Jesus. Jesus é o rosto de Deus que projeta sua luz sobre o caminho do nosso viver. Trilhar nosso caminho à luz de Cristo é viver diante da face de Deus.

O ser cristão é, portanto, desde a raiz, uma experiência mística: o viver na presença de Jesus, o Cristo, e no Espírito que por instância dele nos vem da parte do Pai. Essa mística é alimentada pela liturgia, na qual está incrustada o Pai-Nosso, a oração cotidiana do cristão, como a pérola na ostra. A celebração da Mesa da Palavra e da Mesa Eucarística do Senhor estrutura esse envolvimento místico segundo o ritmo do ano litúrgico, cujo ápice é a Páscoa, a tal ponto que cada domingo pode ser chamado de “Páscoa semanal”. Esta mística cristã abre espaço para muitas formas de contemplação e de oração, de acordo com a diversidade das culturas e das experiências pessoais.

 

A união do fiel com Cristo determina sua prática de vida, a ética cristã. Esta se origina no olhar da consciência fixado em Cristo e iluminado pelo Espírito de Deus, em todas as situações decisivas, em todas as encruzilhadas da vida. O cristão recebe nisso a ajuda de normas práticas (mandamentos) e de atitudes ou qualidades (virtudes) 

Mais profunda, todavia, é a opção fundamental pró ou contra o caminho que nos é apresentado no projeto de Cristo. Essa opção, quando vivida com seriedade, determina em última instância o valor de nossa vida à luz do Fim.

 

O Deus de Jesus e do cristão: “Meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”

Quem foi o Deus de Jesus, o Deus do qual Jesus experimentou a presença e o amor em sua própria vida? É o Pai que nele se manifesta, o Deus Trindade, que é também o Deus proclamado na profissão de fé daqueles que optam por Jesus, o Cristo. 

A experiência fundamental da vida de quem opta por Jesus, na fé, na esperança e no amor, resume-se maravilhosamente no “tudo é graça” de Agostinho. Precisa ser configurada numa vivência confessional, com opção e identidade assumidas e alicerçada na devida iniciação, para que possa ser comunicada e transmitida a outros, especialmente às gerações por vir.

Segundo o Evangelho de João (1,18), ninguém jamais viu Deus. Ninguém pode por seu próprio esforço formar uma imagem dele. O cristão olha em primeiro lugar para Jesus, na sua vida humana, na carne, contemplando a entrega de sua vida por amor e fidelidade. E então diz: “Assim é Deus”. Esse Deus da doação total no amor está presente em nossa vida como o Deus Pai e Filho e Espírito Santo, em cujo nome somos batizados. Esse é o núcleo da profissão da fé cristã, pela qual iniciamos nossa vida como cristãos conscientes, cristãos por opção.

Como se apresenta, então, o “ser cristão”? Partindo daquilo que Jesus vivenciou no seu tempo, no seio de seu povo, vimos o que chegou até nós: aquilo que a comunidade, nascida do acontecer de Jesus, assumiu como seu legado e vivenciou na prática, no tempo e nas circunstâncias históricas próprias, em meio a imperfeições, porém animada pelo Espírito de Jesus. Na perspectiva de nossa profissão da fé batismal, refletimos sobre aquele que chamamos “Deus”, não como uma ideia pré-concebida, mas como aquele que se dá a conhecer no caminho humano de Jesus e que nos convoca a vivenciar, sem esmorecer, a fé, a esperança e o amor, na liberdade dos filhos de Deus. Quem recebe tudo isso como graça, recebe também a missão de viver disso e de transmiti-lo, fielmente, em formas novas.

 

Pe. Johan Konings sj

Doutor em Sagrada Escritura e professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia -FAJE