“Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz!”

Com sua presença provocativa numa refeição, “na casa de um dos chefes dos fariseus”, Jesus denuncia um “pecado de raiz” que, em grau maior ou menor, está presente em todos nós: a vaidade.

“A vaidade é a osteoporose da alma”, afirmou o Papa Francisco; os ossos parecem bons, a partir de fora; mas, por dentro estão todos corroídos. A vaidade nos infla, nos engana, mas não tem longa vida, porque é como uma bolha de sabão.

Este “pecado de raiz” se visibiliza na busca pelos “lugares” de destaque, de prestígio, de honra...

A busca dos primeiros lugares se enraíza numa profunda carência pessoal: a necessidade de se sentir reconhecido. A isso se somam outras necessidades como a de “ser visto”, “ser único” ou “ser especial”.

A vaidade é mascarar a própria vida para aparecer, para fingir, para impressionar...

No evangelho deste domingo, Jesus desmascara a cultura da aparência e da vaidade; no fundo, Jesus desvela a cultura da superficialidade, da mentira e da falsidade existencial. Para a chamada “cultura da imagem” parece que tudo vale, contanto que a imagem pessoal saia beneficiada. O ego busca autoafirmar-se porque unicamente desse modo pode sentir-se “existente”. Entre os modos de autoafirmação se destacam aquela que podemos considerar como pulsão básica: aparecer, chamar atenção sobre si, ser reconhecido... Como se torna impossível fundamentar-se em si mesmo, de uma maneira sadia, devido à sua natureza vazia, precisa “roubar energia” para alimentar-se. Trata-se, portanto, de um parasita que vive do que é tirado dos outros: o elogio, o reconhecimento, a bajulação...

O resultado de tudo esse processo, na medida em que a pessoa se deixa enredar por ele, é um ego escravo da vaidade e da busca de prestígio. Escravidão que corre de mãos dadas com a ignorância acerca daquilo que realmente a pessoa é. O ego se move sempre a partir de suas necessidades e seus medos, que são os que lhe dão uma sensação de existir; e a pessoa egóica cada vez se sente mais frustrada e desconectada de quem verdadeiramente ela é.

As tradições sapienciais sempre insistiram no cultivo de atitudes alternativas, como fica destacado com força na mensagem do próprio Jesus. Este é o caminho da sabedoria e da libertação do sofrimento. E só o crescimento nesta consciência tornará possível a transformação pessoal e coletiva.

A plenitude humana se revela naquilo que a pessoa é, a sua essência, e não naquilo que aparenta. Uma pessoa, vazia de ego, tem acesso à verdadeira sabedoria e deixa transparecer uma profunda gratidão pelo simples fato de existir. Só quando tem acesso à sua verdadeira identidade, a pessoa será transformada e poderá viver numa atitude de gratuidade e gratidão. E assim, descentrada de si mesma, vive uma atitude de acolhida e partilha na relação com os outros; a gratuidade só pode ser vivida quando a identificação com o ego farisaico cai. Então emerge uma nova consciência na qual os outros são percebidos como “parte” de si mesmo; partilhar com os outros é doar-se a si mesmo; causar dano aos outros é danificar a si mesmo.

Podemos imaginar a expressão de susto e surpresa daquele fariseu que convidara Jesus à sua mesa. É que Jesus tem sempre algo “novo” que rompe com “o de sempre”. Contra todo formalismo autocentrado, a Jesus lhe ocorre dizer ao fariseu: “Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir”. A “novidade” da Boa Notícia de Jesus vai sempre contra os “velhos costumes” do “eu te convido para que me convides” (e, se possível, com juros). À lei da “reciprocidade comercial” Jesus contrapõe a “generosidade gratuita”.

Para Jesus, adquire a verdadeira honra quem não se exalta a si mesmo sobre os outro, mas quem “desce” voluntariamente, colocando-se juntos aos últimos e servindo-os. A generosidade é compartilhada com os pobres que não podem pagar com a mesma moeda, porque não tem nada. Honra e vergonha adquirem, na boca de Jesus, um conteúdo diferente: a honra consiste em servir ocupando os últimos lugares e isto não é motivo de vergonha, mas sinal verdadeiro de quem já está dentro do grupo dos verdadeiros seguidores do próprio Jesus que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em favor de muitos”.

Jesus nos convida e nos deslocar para o “último lugar”, pois Ele se fez “último”; Ele entrou na história a partir de baixo, dos últimos, dos excluídos, e não pelo lugar do poder, da riqueza, da força...

As grandes mudanças e transformações, em todos os níveis da condição humana, começam por baixo. Não há mudança que vem de cima. Poderíamos dizer que a denúncia de Jesus, junto à mesa de quem o convidara, alarga o sentido da amizade.

O Para Francisco fala da “amizade social” e colocou esta expressão no centro da encíclica “Fratelli Tutti”; tal expressão pode parecer algo estranha, e por isso reagimos com surpresa. Todos nós estamos acostumados a utilizar a “amizade” como atributo pessoal e privado; para falar das relações na sociedade, recorremos a termos mais amplos como respeito, solidariedade, civismo, cidadania, etc. Reservamos a palavra “amizade” ao círculo íntimo de nossos afetos.

Vivemos um contexto social e religioso onde nos sentimos mais distantes e sozinhos, mais desarticulados e vulneráveis, limitados à condição de espectadores e consumidores; a globalização nos fez vizinhos, mas não irmãos. Claramente, nossas sociedades mostram dificuldades para se constituírem como um projeto que abarque a todos. Obviamente, não nos sentimos companheiros no mesmo barco e inquilinos da mesma casa comum. São inumeráveis os excluídos da mesa da refeição.

A “amizade social” é uma tentativa de reverter esta situação. Seu ponto de partida é o reconhecimento básico do que vale um ser humano, sempre e em qualquer circunstância, considerando-o precioso e digno de todo cuidado. Só exercendo esta visão da vida, realizaremos uma fraternidade aberta a todos.

No entanto, para isso precisamos cruzar as cômodas fronteiras que nos separam.

O desafio é “ir mais além”, tomando consciência, por exemplo, de que a amizade não é um clube exclusivo, mas uma escola onde ativamos habilidades para serem aplicadas universalmente. Os amigos que só se ocupam de seus amigos reduzem o horizonte da amizade. E, da mesma maneira, quando as famílias só se preocupam pelo bem-estar dos seus, e esgotam sua responsabilidade neles, algo decisivo fica por fazer.

A experiência da amizade e do amor deve servir para abrir o coração àqueles que estão excluídos, fazendo-nos sensíveis a esta realidade, envolvendo-nos numa atitude ética de acolhida, dotando-nos de generosidade para sair de nós mesmos e cuidar de todos. Não existimos em um vazio, mas em um contexto amplo e diferente de relações das quais somos corresponsáveis.

Nesse sentido, viver o seguimento de Jesus implica em “sair do próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio) e abrir-nos ao encontro com o outro, sobretudo o “outro” que é vítima de estruturas sociais e políticas injustas, que é excluído, que é marginalizado. “Converter-nos” ao Deus da Vida é “converter-nos” ao compromisso com os prediletos d’Ele, os mais pobres e sofredores; é abrir nossas casas e oferecer nossas mesas.

Fazer caminho com Jesus desperta em nós uma profunda sensibilidade que nos impulsiona a uma presença inspiradora naqueles “lugares” onde já está presente Aquele que continuamente se desloca para o mais baixo, para que nenhuma pessoa, para que nenhuma situação humana, fique fora do “movimento de vida” e de “retorno” de tudo para o Pai.

Texto bíblico:   Lc 14,1.7-14

Na oração: É na espiritualidade da mesa e da refeição que nós cristãos, devemos alimentar a nossa espiritualidade cotidiana. Mas, para isso, precisamos resgatar a mesa como espaço do sagrado, do encontro com o outro e conosco mesmo.

É urgente sermos criativos o suficiente para superarmos os desafios, na esperança de que venha o despertar da nova mesa, com gosto de pão, de vida fraterna, de compromisso.

Mesa criativa, solo de onde brota o alimento material, emocional, psíquico e espiritual em suas múltiplas formas, cores, aromas e sabores do Reino do Pão e da Festa da Vida.

- Quê lugar tem a mesa da refeição no cotidiano de sua vida familiar, comunitária, eclesial...?

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

29.08.25