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ESTER JOSEFA LIBERALI MAGAJEWSKI
Fabrício Carpinejar

Minha catequista morreu, aos 96 anos, em Porto Alegre (RS). Poderia dizer que ela estará com Deus. Mas não seria uma verdade: ela sempre esteve com Deus.

Numa época em que as famílias já não fazem questão de colocar as suas crianças no catecismo e partilhar dos sacramentos da Igreja, eu posso garantir que não seria quem eu sou se não tivesse conhecido Ester.

Tinha sete anos, problemas sérios de dicção, dificuldades de aprendizado, botas ortopédicas com ferro nas pontas, de repente essa senhora mansa e gentil apareceu em minha vida, na igreja São Sebastião, como um anjo de vestido escuro, e entendia tudo o que eu queria dizer. Não precisava repetir nada. Não me sentia estranho, gago, falho em sua presença. Eu fluía, eu existia plenamente. Foi a primeira vez que eu me vi capaz. Capaz de ser eu mesmo.

Ela não pretendia curar a minha tristeza, mas demonstrou o único antídoto que existe para ela: dar companhia. Não me deixou sozinho sofrendo. Nunca mais fui sozinho no sofrimento.

Sua voz envolveu o meu coração, como uma almofada, protegendo-me do bullying. Eu não me desesperava mais, pois ela me explicava a emoção. Emoção explicada para de doer.

Ainda a escuto me esclarecendo que quem parece mais fraco, no fundo, é mais forte, porque não se esconde da sensibilidade. Só chora quem tem coragem de também falar pelos olhos.

Sabe aquelas pessoas que surgem quando a sua confiança está por um fio, um fio solto, e não puxam o tecido para fora, esgarçando ainda mais o conjunto da personalidade, mas o guardam para dentro da roupa? Era ela: Ester Josefa Liberali Magajewski.

Era ela, uma Bíblia andando pelo bairro Petrópolis. Um livro de capa dura com papel de seda por dentro. Firme e forte na aparência, e uma doçura no interior, leve e sorridente na hora de folhear com a ponta dos dedos.

Seu abraço tinha o poder curativo de uma benção. Quando pequeno, eu abraçava o seu ventre. Renascia em seu colo de camomila.

Usava brincos para lembrar de ouvir antes de julgar. Mantinha algum peso nas orelhas de propósito.

Ela entra nesta terça (11/2/2020) na árvore de um caixão, para encher de pássaros o cemitério João XXIII. Todos que a amaram são pássaros (filhos, netos, alunos). Dorme agora ao lado de seu marido Casemiro. De mãos dadas com a sabedoria.

Publicado no jornal Zero Hora, GaúchaZH, 11/02/2020

Fabrício Carpinejar é poeta e escritor.