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Atos dos Apóstolos - 17

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A viagem do Evangelho pelo mundo continua ininterrupta no Livro dos Atos dos Apóstolos, e atravessa a cidade de Éfeso, mostrando todo o seu poder salvífico. Graças a Paulo, cerca de doze homens recebem o batismo em nome de Jesus e experimentam a efusão do Espírito Santo que os regenera (cf. At 19, 1-7). Depois há várias maravilhas que acontecem através do Apóstolo: os doentes curados e os possuídos são libertados (cf. At 19, 11-12). Isto acontece porque o discípulo se assemelha com o seu Mestre (cf. Lc 6, 40) e o torna presente, comunicando aos seus irmãos a mesma vida nova que recebeu dele.

O poder de Deus que irrompe em Éfeso desmascara aqueles que desejam usar o nome de Jesus para realizar exorcismos, mas sem terem autoridade espiritual para o fazer (cf. At 19, 13-17), e revela a fraqueza da magia, que é abandonada por um grande número de pessoas que escolhem Cristo e renunciam às artes mágicas (cf. At 19, 18-19). Uma verdadeira inversão para uma cidade, como Éfeso, que foi um centro famoso para a prática da magia! Lucas enfatiza assim a incompatibilidade entre a fé em Cristo e a magia. Se escolheres Cristo, não podes recorrer ao mago: a fé significa abandonar-se nas mãos de um Deus confiável, que se faz conhecer não através de práticas ocultas, mas da revelação e com amor gratuito. Talvez alguns de vós me digam: “Ah, sim, isto de magia é uma coisa antiga: hoje, com a civilização cristã isto não acontece”. Mas tomai cuidado! Eu pergunto-vos: quantos de vós vão ler a sina, quantos de vós vão aos adivinhos para que lhes leiam as mãos ou as cartas? Ainda hoje, nas grandes cidades, os cristãos praticantes fazem essas coisas. E à pergunta: “Mas como é que, se crês em Jesus Cristo, vais ao mago, ao adivinho, a todas estas pessoas?”, respondem: “Creio em Jesus Cristo, mas por superstição vou também a elas”. Por favor: a magia não é cristã! Essas coisas que são feitas para adivinhar o futuro ou adivinhar muitas coisas ou mudar situações da vida, não são cristãs. A graça de Cristo traz-te tudo: reza e confia no Senhor.

A difusão do Evangelho em Éfeso prejudica o comércio dos ourives — outro problema — que fabricavam as estátuas da deusa Ártemis, fazendo da prática religiosa um verdadeiro negócio. Peço-vos que penseis nisto. Vendo diminuir aquela atividade que rendeu muito dinheiro, os ourives organizaram uma revolta contra Paulo, e os cristãos foram acusados de terem colocado em crise a categoria de artesãos, o santuário de Ártemis e a adoração desta deusa (cf. At 19, 23-28).

Depois, Paulo parte de Éfeso para Jerusalém e chega a Mileto (cf. At 20, 1-16). Aqui ele manda chamar os anciãos da Igreja de Éfeso — os presbíteros: ou seja, os sacerdotes — para fazer uma entrega de exortações “pastorais” (cf. At 20, 17-35). Estamos na fase final do ministério apostólico de Paulo e Lucas apresenta-nos o seu discurso de despedida, uma espécie de testamento espiritual que o Apóstolo dirige àqueles que, depois da sua partida, deverão guiar a comunidade de Éfeso. E esta é uma das páginas mais belas do Livro dos Atos dos Apóstolos: aconselho-vos a pegar hoje no Novo Testamento, na Bíblia, capítulo 20 e ler esta despedida de Paulo dos sacerdotes de Éfeso, que ele fez em Mileto. É um modo para compreender como o Apóstolo se despede e também como os sacerdotes de hoje se deveriam despedir, assim como se deveriam despedir todos os cristãos de hoje. É uma página linda.

Na parte exortativa, Paulo encoraja os responsáveis da comunidade, que ele sabe que vê pela última vez. E que lhes diz? “Vigiai sobre vós mesmos e sobre todo o rebanho”. Esta é a obra do pastor: ser vigilante, vigiar sobre si mesmo e sobre o rebanho. O pastor deve vigiar, o pároco deve vigiar, ser vigilante, os presbíteros devem vigiar, os bispos, o Papa devem vigiar. Vigiar para guardar o rebanho, e também vigiar sobre si mesmo, examinar a própria consciência e ver como se cumpre este dever de vigiar. «Tomai cuidado convosco e com todo o rebanho, de que o Espírito Santo vos constituiu administradores para apascentardes a Igreja de Deus, adquirida por Ele com o seu próprio sangue» (At 20, 28): assim diz São Paulo. Pede-se aos episcopi que se aproximem o mais possível do rebanho, resgatado pelo sangue precioso de Cristo, e que estejam dispostos a defendê-lo dos «lobos» (v. 29). Os Bispos devem estar muito próximos do povo para o guardar, para o defender; não devem estar afastados do povo. Depois de ter confiado esta tarefa aos responsáveis de Éfeso, Paulo entrega-os nas mãos de Deus e recomenda-os à «palavra da sua graça» (v. 32), fermento de qualquer crescimento e caminho de santidade na Igreja, convidando-os a trabalhar com as próprias mãos, como ele, para não serem um peso para os outros, a fim de ajudar os fracos e experimentar que «a felicidade está mais em dar do que em receber» (v. 35).

Queridos irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor que renove em nós o seu amor pela Igreja e pelo depósito da fé que ela conserva, e que nos torne a todos corresponsáveis na preservação do rebanho, apoiando com a oração os pastores para que manifestem a firmeza e a ternura do Divino Pastor.

Papa Francisco

Audiência Geral - 04.12.2019