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Catequese sobre os Atos dos Apóstolos - 14

Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

Lendo os Atos dos Apóstolos vê-se que o Espírito Santo é o protagonista da missão da Igreja: é Ele quem guia o caminho dos evangelizadores, mostrando-lhes a vereda a seguir.

Vemos isto claramente no momento em que o Apóstolo Paulo, ao chegar a Troade, tem uma visão. Um Macedônio suplica-lhe: «Vem à Macedônia e ajuda-nos!» (At 16, 9). O povo da Macedônia do Norte é orgulhoso disto, muito orgulhoso de ter chamado Paulo, para que ele anunciasse Jesus Cristo. Lembro-me muito bem daquele bonito povo, que me recebeu com tanto entusiasmo: oxalá conserve a fé que Paulo lhe anunciou! O Apóstolo não hesita e parte para a Macedônia, certo de que é o próprio Deus que o envia, e chega a Filipos, «colônia romana» (At 16, 12) na Via Egnácia, para pregar o Evangelho. Paulo passa ali vários dias. São três os acontecimentos que caraterizam a sua permanência em Filipos, naqueles três dias: três acontecimentos importantes. 1) A evangelização e o batismo de Lídia e da sua família; 2) a prisão que sofreu, com Silas, depois de ter exorcizado uma escrava explorada pelos seus senhores; 3) a conversão e o batismo do seu carcereiro e da sua família. Vemos estes três episódios na vida de Paulo.

O poder do Evangelho visa sobretudo as mulheres de Filipos, em particular Lídia, uma comerciante de púrpura, na cidade de Tiatira, uma crente em Deus a quem o Senhor abre o coração «para aderir às palavras de Paulo» (At 16, 14). Com efeito, Lídia acolhe Cristo, recebe o Batismo com a sua família e hospeda aqueles que pertencem a Cristo, acolhendo Paulo e Silas na sua casa. Aqui temos o testemunho da chegada do cristianismo à Europa: o início de um processo de inculturação que continua até hoje. Ele veio da Macedônia.

Depois do entusiasmo experimentado na casa de Lídia, Paulo e Silas têm que enfrentar a dureza da prisão: passam da consolação da conversão de Lídia e da sua família para a desolação do cárcere, onde foram lançados por terem libertado, em nome de Jesus, «uma serva que tinha um espírito de adivinhação» e que «dava muito lucro aos seus senhores» com o trabalho de adivinha (At 16, 16). Os seus senhores ganhavam muito dinheiro e aquela pobre escrava fazia o que os adivinhos fazem: adivinhava o futuro, lia as mãos — como diz a canção, “prendi questa mano, zingara” [“pega nesta mão, cigana”] — e as pessoas pagavam por isto. Prezados irmãos e irmãs, ainda hoje há pessoas que pagam por isto. Lembro-me que na minha diocese, num parque muito grande, havia mais de 60 mesinhas, diante das quais estavam sentados os adivinhos e as adivinhas, que liam as mãos e as pessoas acreditavam nessas coisas! E pagavam. E isto acontecia também na época de São Paulo. Por retaliação, os seus senhores denunciam Paulo e conduzem os Apóstolos perante os magistrados com a acusação de desordem pública.

Mas o que acontece? Paulo está na prisão e, durante a sua detenção, verifica-se algo surpreendente. Está desolado, mas em vez de se queixar, Paulo e Silas cantam louvores a Deus e este louvor desencadeia um poder que os liberta: durante a oração, um tremor de terra abala os fundamentos da prisão, as portas abrem-se e as correntes de todos caem (cf. At 16, 25-26). Como a oração de Pentecostes, também a prece recitada na prisão provoca efeitos prodigiosos.

Julgando que os prisioneiros tinham escapado, o carcereiro estava prestes a suicidar-se, pois quando um prisioneiro escapava, os carcereiros pagavam com a própria vida; mas Paulo brada-lhe: «Estamos todos aqui!» (At 16, 27-28). Então, ele pergunta: «Que devo fazer para ser salvo?» (v. 30). A resposta é: «Acredita no Senhor Jesus, e assim tu e os teus sereis salvos» (v. 31). É neste ponto que se verifica a mudança: no meio da noite, o carcereiro e a sua família ouvem a palavra do Senhor, acolhem os Apóstolos, lavam as suas feridas — porque tinham sido espancados — e, com a sua família, recebem o Batismo; então, ele «entrega-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus» (v. 34), prepara a mesa e convida Paulo e Silas a permanecer com eles: o momento da consolação! No meio da noite deste carcereiro anônimo, a luz de Cristo brilha e vence as trevas: as correntes do coração caem e, nele e na sua família, floresce uma alegria nunca experimentada. É assim que o Espírito Santo cumpre a missão: desde o início, do Pentecostes em diante, Ele é o protagonista da missão. E leva-nos adiante; devemos ser fiéis à vocação que o Espírito nos impele a abraçar. Para anunciar o Evangelho!

Peçamos também nós hoje ao Espírito Santo um coração aberto, sensível a Deus e hospitaleiro para com os nossos irmãos, como o de Lídia, e uma fé arrojada, como a de Paulo e de Silas, e inclusive um coração aberto, como o do carcereiro que se deixa tocar pelo Espírito Santo.

Papa Francisco

Catequese na audiência geral 30.10.2019