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Catequese sobre os Atos dos Apóstolos - 9

Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

Através do Livro dos Atos dos Apóstolos, continuamos a percorrer um caminho: o caminho do Evangelho no mundo. São Lucas mostra com grande realismo tanto a fecundidade deste caminho como o surgimento de alguns problemas no seio da comunidade cristã. Desde o princípio, sempre houve problemas. Como harmonizar as diferenças que coexistem no seu interior, sem que se verifiquem contrastes e divisões?

A comunidade não acolhia só judeus, mas também gregos, isto é, pessoas provenientes da diáspora, não-judeus, com as próprias culturas e sensibilidades e com outra religião. Hoje, dizemos “pagãos”. E eles eram acolhidos. Essa convivência determina equilíbrios frágeis e precários; mas diante das dificuldades nasce o “joio”, e qual é o pior joio que destrói uma comunidade? O joio da murmuração, o joio da tagarelice: os gregos murmuram devido à desatenção da comunidade em relação às suas viúvas.

Os Apóstolos encetam um processo de discernimento que consiste em considerar bem as dificuldades e em procurar juntos soluções. Encontram uma saída, distribuindo as várias tarefas para um crescimento sereno de todo o corpo eclesial e para evitar negligenciar tanto a “corrida” do Evangelho como o cuidado dos membros mais pobres.

Os Apóstolos estão cada vez mais conscientes de que a sua vocação principal é a oração e a pregação da Palavra de Deus: rezar e anunciar o Evangelho; e resolvem a questão instituindo um núcleo de «sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria» (At 6, 3) que, depois de terem recebido a imposição das mãos, se ocuparão do serviço nos refeitórios. Trata-se de diáconos, que são criados para isto, para o serviço. Na Igreja o diácono não é um sacerdote de segundo plano, é outra coisa; não é para o altar, mas para o serviço. É o guardião do serviço na Igreja. Quando um diácono gosta demasiado de ir ao altar, está enganado. Este não é o seu caminho. Esta harmonia entre serviço à Palavra e serviço à caridade representa o fermento que faz levedar o corpo eclesial.

E os Apóstolos criam sete diáconos, e entre os sete “diáconos”, destacam-se em particular Estêvão e Filipe. Estêvão evangeliza com força e parrésia, mas a sua palavra encontra as resistências mais obstinadas. Dado que não encontra outra maneira para o levar a desistir, o que fazem os seus adversários? Escolhem a solução mais mesquinha para aniquilar um ser humano: isto é, a calúnia, ou falso testemunho. E sabemos que a calúnia mata sempre. Este “tumor diabólico”, que deriva da vontade de destruir a reputação de uma pessoa, fere também o resto do corpo eclesial, danificando-o gravemente quando, por interesses desprezíveis ou para encobrir as suas próprias faltas, as pessoas unem-se para difamar alguém.

Conduzido ao Sinédrio e acusado por falsas testemunhas — fizeram o mesmo com Jesus e farão o mesmo com todos os mártires através de falsas testemunhas e calúnias — Estêvão proclama uma releitura da história sagrada, centrada em Cristo, para se defender. E a Páscoa de Jesus morto e ressuscitado é a chave de toda a história da aliança. Perante esta superabundância do dom divino, Estêvão denuncia corajosamente a hipocrisia com que os profetas e o próprio Cristo foram tratados. E recorda-lhes a história, dizendo: «Qual foi o profeta que os vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que predisseram a vinda do Justo, a Quem agora traístes e assassinastes» (At 7, 52). Ele não usa meias-palavras, mas fala claramente, diz a verdade.

Isto provoca a reação violenta dos ouvintes, e Estêvão é condenado à morte, à lapidação. Mas ele manifesta o verdadeiro “talento” do discípulo de Cristo. Ele não procura subterfúgios, não apela a personalidades que o possam salvar, mas volta a colocar a sua vida nas mãos do Senhor e naquele momento a oração de Estêvão é muito bonita: «Senhor Jesus, recebe o meu Espírito» (At 7, 59), e morre como um filho de Deus, perdoando: «Senhor, não lhes atribuas este pecado» (At 7, 60).

Estas palavras de Estêvão ensinam-nos que não são os belos discursos que revelam a nossa identidade de filhos de Deus, mas somente o abandono da própria vida nas mãos do Pai e o perdão para aqueles que nos ofendem mostram-nos a qualidade da nossa fé.

Hoje há mais mártires do que nos primórdios da vida da Igreja, e os mártires estão em toda a parte. A Igreja de hoje é rica de mártires, é irrigada pelo seu sangue, que é «semente de novos cristãos» (Tertuliano, Apologeticum, 50, 13) e assegura crescimento e fecundidade ao Povo de Deus. Os mártires não são “santinhos”, mas homens e mulheres de carne e osso que — como diz o Apocalipse — «lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro» (7, 14). Eles são os verdadeiros vencedores!

Peçamos também nós ao Senhor que, olhando para os mártires de ontem e de hoje, possamos aprender a levar uma vida plena, aceitando o martírio da fidelidade diária ao Evangelho e da conformidade com Cristo.

Papa Francisco

Catequese na audiência geral 25.09.2019