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“Tenho, no meu jardim, um pé de rosmaninho. Ele é, em tudo, igual a todos os outros pés de rosmaninho que há por este mundo. Aquele cheirinho gostoso, quando a gente esbarra nas folhas; brancas, com uma gota de rosa, milhares de florinhas, quanto chega o tempo; e as abelhas sem conta ajuntam e zumbem. Gosto de me deitar na rede, perto dele, quando as noites são frescas e há aquela brisa... Às vezes descubro que estou conversando com ele e já cheguei mesmo a agradar as suas folhas, como se ele sentisse. Nunca se sabe ao certo...

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Igual a todos os demais exceto uma coisa. Foi meu pai que me deu a mudinha, galho lascado, faz tempo. Meu pai já morreu. O rosmaninho guardou o seu gesto. Como se, do arbusto, saíssem fios de memória que me ligam a alguém que já não está mais presente. Fios, claro, que ninguém vê. Só eu. Ou aqueles a quem eu quiser revelar este segredo. O espaço em torno daquele rosmaninho é mágico – para mim, que vejo os fios. Os amigos que não sabem o segredo, sentem o perfume, vêem o verde... Se eu lhes perguntar sobre o arbusto me dirão que o estão vendo. Sua fala me repetirá sobre aquela presença silenciosa e fiel: o pé de rosmaninho. Mas não sairá daí. A boca está prisioneira dos olhos. Pregada no chão. Faltam-se as palavras que lhe permitiriam voar... Somente eu, a partir do rosmaninho, poderei falar de uma ausência: alguém que não está ali, que já esteve... E da planta pulo para um rosto; e me lembro de risos, alegrias, tristezas... É por isto que o espaço em torno do rosmaninho é mágico. A memória faz a imaginação voar, e ela enche o ar com coisas humanas, que têm a ver com a amizade e a lealdade dos muitos anos vividos juntos.


Coisa bonita esta: que haja coisas que são mais que coisas, coisas que nos fazem lembrar... A flor seca dentro do livro. Às vezes um perfume que a gente sente, andando na rua. E, lá do fundo, vem a estranha sensação de estarmos ligados, por aquele perfume, a alguém, a algum lugar, longe, no passado. O repicar de um sino, que me leva para mundos onde nunca estive. O cantar de um galo, que nos vem de espaços que não mais existem. Ou um brinquedo, uma boneca velha, esquecida. Uma comida com gosto de saudade. Coisas presentes que nos abrem o mundo as ausências... Saudade não será isto? Sentir que algo está faltando, alguém, que o coração deseja, está longe... Mas não basta a ausência. Há muitas coisas que se perderam e ficaram para trás, das quais não sentimos saudade. É que a gente não amava. A saudade nasce quando existe amor e ausência...


Quando as coisas despertam saudades e fazem brotar, no coração, a memória do amor e o desejo da volta, dizemos que são sacramentos. Sacramento é isto: sinal visível de uma ausência, símbolo que nos faz pensar em retorno. Como aconteceu com Jesus que, logo antes da partida, realizou um memorial de saudade e espera. Juntou seus amigos, seguidores, partiu o pão e lhes deu de comer, tomou o vinho e com eles bebeu dizendo que, depois daquilo, viria a separação e a saudade. Eles seriam como uma noiva de quem o noivo é roubado... Tempo de lágrimas, de espera... E, por onde quer que fossem, encontrariam os sinais de uma Ausência imensa... E o coração ficaria inquieto, sem descanso... E cada palavra sua se transformaria numa oração, porque oração é a palavra balbuciada com desejo...


Deus mora na saudade, ali onde o amor e ausência se assentam.


Ah! É preciso não esquecer a saudade. É ela que faz toda a diferença".

(In: Alves, Rubem. Creio na Ressurreição do corpo. Editora Paulus, 2005)

 

Leitura Mt 5, 3-10:

“Bem-aventurados os que têm saudade de Deus, o Reino dos Céus lhes pertence.

Bem-aventurados os tristes, consolo lhes será dado.

Bem-aventurados os de espírito manso, a terra lhes será dada como posse.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, eles serão satisfeitos.

Bem-aventurados os que mostram misericórdia, porque receberão misericórdia.

Bem-aventurados aqueles cujos corações são puros, eles verão a Deus.

Bem-aventurados os que lutam pela paz, Deus os chamará de filhos.

Bem-aventurados os que têm sofrido perseguição por causa da justiça o Reino dos Céus lhes pertence.

Vóis  sois o sal da terra. Ora, se o sal perde seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogados fora e pisado pelas pessoas”.

 

Para refletir:

Saudades de Cristo: o que é isto? Saudades de Deus? Você já sentiu? Como? Quando?

A Igreja é uma comunidade de saudade? Quando as pessoas oram “Venha o teu Reino”, será que elas sentem aquela nostalgia de quem perdeu um ente querido?

A catequese que fazemos leva à intimidade, relacionamento com Deus, a sentir saudade Dele?


Lucimara Trevizan

Equipe do Catequese Hoje

15.03.2013