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Surgiu, há muitos anos, do meio da habitação das nuvens e do sol, um menino que cantava de maneira tão bela, que as pessoas de perto e de longe acorriam para vê-lo e ouvi-lo. O menino se chamava Milomaki. À melodia de seus cantos todos silenciavam. O vento suspendia a sua respiração, o marulhar das águas emudecia. O farfalhar das folhas cessava. Até os pássaros retinham o seu trinar e os homens se encantavam. Por uns poucos instantes, as angústias, os medos, a dor e as discórdias abandonavam a alma de todos. E, por entre os lábios, saíam, dos corações, sinceros sorrisos. E Milomaki cantava. 

Os que ouviam Milomaki, assim que voltavam para casa, já não eram mais ou mesmos. Como que encantados pela delicadeza daquela voz e daquele menino celestial tornavam-se suaves demais para a guerra e para as lutas e para as discórdias. Pelos cantos de Milomaki inundados de beleza como brilhos do sol e de elegância como filhos da lua, já não prestavam mais como serviçais e escravos de seus senhores. Pois pareciam agora, também eles, filhos e filhas dos deuses como aquele menino que à terra desceu como uma pétala de luz. 

Nunca nesta terra permanecemos os mesmos quando os ouvidos dos nossos corações ouvem cantilenas de amor. E foi por isso que os parentes dos assim encantados decidiram aprisionar Milomaki. Apanharam-no e determinaram que o iriam queimar numa grande fogueira porque ele havia raptado do seu poder os seus irmãos. 

O jovem menino celestial continuou cantando de maneira maravilhosa até o fim. E quando as chamas já lambiam o seu corpo ele cantou: “Agora eu morro, meus filhos. Agora eu deixo este mundo”. E, quanto mais inflava o seu corpo pelo calor das chamas, mais belos sons ainda ele cantava. “Agora, parte-se o meu corpo, - dizia ele – agora, eu estou morto”. E o seu corpo estourou. E dali saíram pétalas de amor. Ele morreu e foi devorado pelas chamas. 

A alma de Milamaki subiu para os céus enquanto o seu corpo em forma de cinzas desceu à terra. E daquele lugar onde repousaram suas cinzas cresceu, ainda no mesmo dia, uma folha verde e longa que se formou, a olhos vistos, maior e maior. E distendeu-se e já era no dia seguinte uma grande árvore. A primeira palmeira, porque antes a palmeira não existia. As pessoas, porém, faziam da maneira da palmeira grandes flautas e essas reproduziam as maravilhosas variações do canto que um dia cantara entre os homens Milomaki. E os homens tocam até hoje os cantos de Milomaki, todas as vezes que os frutos da floresta se tornam maduros. Eles dançam em honra do deus que um dia passou entre os homens e cantou e criou os frutos todos e todos os homens.

Numa terra bem distante de onde um dia apareceu Milomaki contam que também lá um dia veio também dos céus uma criança tão bela que a chamaram de Emanuel: “Conosco está Deus”. Se Emanuel cantava, nunca nos disseram, mas contaram-nos que ele encantou a muitos, incontáveis. E, diante dele, petrificados se enterneciam, culpados se sentiam perdoados, humilhados se reerguiam e os pobres se sentiam ricos e pessoas já mortas voltavam a viver. Contam que também ele foi sentido como estorvo e foi assassinado. Mas nunca ele foi esquecido. E recordar Emanuel é como ouvir mais uma vez poemas celestiais e canções de um outro mundo, um mundo encantado.O Reino de Deus. A voz e os vestígios de Deus entre os homens.

Frei Prudente Nery

Frei capuchinho, teólogo, já falecido.