redes-de-pesca-capa-1.jpg

Nas redes não se dorme nem se descansa. Há sempre quem fale, quem comente, quem ponha like ou not like. Os likes desdobraram-se em semi-emoções que são tudo menos isso. Alegria, amor, tristeza ou raiva. Tudo se divide nestas quatro categorias. O que não couber em nenhuma delas, não existe. É nesta espiral que voamos sem sair do mesmo sítio. São voos de quem perdeu, há muito, as asas e a noção. Parecemos pássaros que confundem o brilho de uma janela com a liberdade verdadeira. Parecemos dotados de uma teimosia que nos faz bater, constantemente, contra um vidro. 

Nas redes não se dorme nem se descansa. Há sempre novas polêmicas, dilemas ou debates sustentados por uma ciência bastante conhecida e aclamada: o senso comum. Ou a falta dele. As vozes que se acendem do lado de lá do ecrã são sábias. Donas de uma verdade incontestável e fortalecida pela falta de coragem. Pela falta de argumentos sérios e válidos. Pela falta de compaixão. De atenção. De compreensão. Toda a gente parece ter-se especializado e pós-graduado em todo e qualquer assunto. Nas redes, tudo se sabe. Tudo se controla. Tudo pertence a todos. 

Nas redes não se dorme nem se descansa. Perturba-me a facilidade com que se insulta, enxovalha e humilha. Quem seremos os que estão atrás do ecrã e do teclado? Serão apenas os outros ou serei, também, eu? Que direito tenho de julgar o que não conheço e de opinar sobre livros e histórias que não conheço para além da capa? Quem sou eu para falar de liberdade de expressão se a uso para expressar veneno, ódio e fel? 

Já vai sendo tempo de apagar a luz às redes. O que está aceso, meus amigos, não é bom. Faz mal. Faz ferida e é muito, muito feio. 

Já vai sendo tempo de construir redes que valham a pena e que nos sustentem com palavras boas e livres de rancores. 

Já vai sendo tempo de ter mais coragem para ficar mais vezes calado. Para falar apenas do que se sabe. Para ver, apenas, o que lá está. 

Já vai sendo tempo de usar o coração como trampolim para sair deste emaranhado. São redes muito pouco sociais, estas… Saltamos?

Marta Arrais

In: imissio.net