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A experiência de Deus na Juventude

 

Na adolescência e juventude (14-17), Deus converte-se na “utopia do eu”. Partindo de suas projeções pessoais e usando a sua imaginação, projeta em Deus as perfeições que gostaria de possuir. Isto o leva a uma relação pessoal com Deus. Dá-se aqui o que chamamos de “interiorização”, pois como identifica Deus com um “eu ideal”, imagina um Deus que responda aos seus desejos e necessidades. Há neste período três sub-fases:

-A descoberta da amizade: deseja experimentar e concretizar fortes laços de amizade com Deus como Pai, amigo e confidente dos seus monólogos interiores. Aliviador e solucionador dos seus sofrimentos e dificuldades materiais e morais.
-A idealização de modelos: deseja um Deus Herói, vencedor dos inimigos, que arrisca tudo pelos amigos, com perfeição infinita. Cristo é o modelo de super-homem.
-O devaneio místico-sentimental: deseja um Deus em que se possa refugiar e que o ajude a livrar-se dos conflitos da vida real. Quer isolar-se em Deus, fugindo ao mundo real. Deseja viver para sempre em Deus.


O adolescente e o jovem, no fundo, acreditam numa força maior a defendê-lo sempre das conseqüências de desatinos e loucuras que pratica. É comum no final do ano, em vez de ter estudado bem, refugiar-se em orações e novenas para passar de ano. O jovem gostaria que Deus interviesse em sua vida, poupando-lhe as decisões, a liberdade, o compromisso. É hora de apresentar o Deus de Jesus, aquele que chama “Vem e Segue-me”, dentro da realidade, na história pessoal e social; Aquele que conduz a viver todas as situações de “cruz” e não a fugir;  aquele que é amigo e companheiro que chama a construir um mundo novo.

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O que marca profundamente a religiosidade do adolescente é o desenvolvimento do seu pensamento e da sua inteligência, a crise de independência, a descoberta da intimidade pessoal, o despertar da amizade, a culpabilidade unida aos impulsos sexuais... E junto com estes elementos está profundamente dependente da sua emotividade (no que se refere à sensibilidade) e da afetividade (no que se refere à inclinação para o outro).

 

Para o adolescente tudo o que vem do meio é submetido a uma reflexão crítica para ser assumido pessoalmente. Isso acontece também com a fé, não podemos dizer que se dá uma perda da fé, é apenas uma perda da segurança e das formas exteriores da fé. É nesta linha que, recusando a religião oficial, faz sua própria religião personalizada, onde Deus está em relação com o seu “eu”, comprometido individualmente com ele, pode amá-lo e ajudá-lo nas dificuldades de relacionamento social e afetivo, sem nunca falhar. Deus é, ou deve ser, o vencedor dos combates contra as tentações. Levam muitas vezes uma luta entre o espiritual (Deus) e o carnal (sexo), pelos 15 anos, em plena “crise sexual”.

 

Geralmente a catequese e a pregação lhe parecem longe da vida e dos seus problemas concretos: amizades, o sexo, o matrimônio, as diversões, o prazer pessoal, a oração, o sofrimento, as relações familiares, os valores da adolescência e até, muitas vezes, da própria Bíblia. Alguns irão achar a religião um sério problema para sua vida e outros afirmam que ela deturpa a consciência, levando a constantemente os acusar de pecado. Como reação de defesa, deixam de praticar. Há também os que participam assiduamente dos sacramentos motivados pelos problemas e busca de resolução dos mesmos. Outros, ainda, têm freqüentemente melancolia indefinida, sentimentos de culpabilidade. É importante nesta fase como em outras da vida, o carinhoso acompanhamento de alguém capaz de comunicar amor incondicional e que ajude a não ficar estagnado, mas manter-se em marcha.

 

O quarto de dormir do jovem simboliza muito bem a passagem de uma ordem interior para a desordem da nova etapa de vida. Quando criança tinha-o bem arrumado pela mãe, com cores e bonecas ou jogos infantis. Hoje está desarrumado com tênis, roupa e objetos diversos espalhados pelo chão. O jovem perde o corpo infantil, já não consegue fingir que nada lhe acontece; os pais imaginários da infância se vão; a ilusão da completude se esvai. Muitas vezes, sozinho, tímido e deprimido, ele não tem coragem de enfrentar a realidade. Percebe que a desordem experimentada no exterior e interior de sua vida lhe possibilita criar uma ordem diferente da anterior. Então o medo aparece. Entrega-se facilmente à fuga do sono. Dorme muito além do necessário na sua idade. Outros jovens põem-se a sonhar acordados. Povoam a fantasia com devaneios, escapando da dureza da realidade. Sentados, com olhar vago, passam inúmeros filmes interiores de desejos, de sonhos, longe do mundo que os cerca e que os faz sofrer.

 

Muitos jovens se concentram numa paixão presente e absorvente que também exerce a função ilusória de fuga. Os pais e outros amigos, de repente, percebem que um jovem sai de circulação. Navega no mar da afeição turbulenta que lhe suga as energias. Ele ou ela, conforme o caso, ocupa todo o espaço existencial. Não sobra lugar para mais nada. A fuga mais dramática e perigosa é a droga nas formas diversas.


O problema fundamental da existência humana é o da busca da Felicidade. Quanto mais o jovem sente essa sede de felicidade e quanto mais o futuro lhe aparece inseguro e ameaçador, tanto mais os prazeres, as emoções e as paixões fortes e imediatas o atraem. O jovem está à espera de caminhos que o arranquem desse vazio interior, trazendo-o para o concerto da existência. A vida apresenta vários caminhos para chamar o jovem à realidade. A família, apesar de toda fragilidade, é lugar onde o jovem cria relações estáveis, arrancando-o da fuga. A vida em grupo ajuda a superar limitações. A vida em grupo seduz o jovem. A aposta em causas humanitárias também coloca o jovem diante da realidade e o conscientiza para os grandes problemas da humanidade.

 

O jovem adulto num desenvolvimento em três fases:

a)A transição dos dezoito anos (17 aos 22/24 anos): Tempo fértil de buscas, sobretudo a realização afetiva, projeto de vida. É um importante momento de passagem: um tempo para criar o “ideal de vida”. Alguns elementos característicos desta fase: exploração das relações mais profundas, busca de um ou vários mestres (conselheiros) que estimulem e dêem fundamento a este sonho, incentivando o sujeito a caminhar para um ideal e a abrir-se para as relações sociais. Há importantes tarefas a realizar: alcançar a independência em relação aos pais, ter responsabilidade e autonomia, criar uma identidade própria, fixar objetivos que o levem a realizar o próprio sonho ou projeto de vida, encontrar a vocação, a profissão e o lugar na sociedade. Este período é fértil de buscas, experiências, namoro, estudo, deve ser prioritário para algumas pastorais, como por exemplo, a Pastoral da Juventude.


b)O período dos vinte anos (21-30): Época de encontrar no equilíbrio afetivo entre a busca da intimidade representada especialmente através da relação amorosa com uma pessoa escolhida para compartilhar a vida e a tendência ao isolamento. O ideal começa a se realizar através do trabalho, do amor e de compromissos sociais e religiosos.


c)A transição dos trinta anos (31-40). É um período de indagações mais profundas sobre si mesmo, rumo de vida, convicções, sentido do trabalho, da família, de compromissos com a sociedade. Estabelecem-se novas metas e responsabilidades.


Esta fase é ligada a três desafios: o da intimidade, da capacidade de sonhar e, do ponto de vista espiritual, da dúvida religiosa. Os primeiros anos da vida adulta são marcados pelo desafio psicológico da intimidade, do encontro-confronto com o outro ou com os outros. A pessoa se pergunta: sou seguro de mim mesmo e confio em minhas possibilidades, para correr o risco de ser influenciado pelas relações estreitas com quem quer que seja?


A aceitação de colocar em risco a própria identidade e redefini-la deixando-se influenciar por outras pessoas é a característica da intimidade. O amor, entendido como capacidade de receber do outro e ajudar o outro a se definir, é a solução positiva do desafio da intimidade.


A intimidade é vivida na amizade e na solidariedade (uma pessoa aceita  ser modificada a partir do relacionamento com outra ou com os outros grupos). É vivida também no matrimônio, no trabalho, onde se percebe a cooperação ou a concorrência.


O adulto nesta fase carrega consigo a capacidade de sonhar o seu próprio Eu, a própria realização e o próprio ambiente. As suas relações amorosas, familiares, profissionais e sociais aparecem como uma aproximação do sonho cultivado. Neste sentido a capacidade de sonhar desenvolve um incentivo de potencial inovador.


Nesta fase, em muitos casamentos, o homem quer “ganhar mais dinheiro”, se dedica mais à profissão, se doa inteiramente ao trabalho. A mulher passa a olhar mais para si mesma. Já criou os filhos e começa a questionar o casamento. O relacionamento do casal se complica. Geralmente a crise fica bem difícil.


Esta fase é sempre um período no qual se coloca em dúvida tudo que se recebe em nível de fé. O conflito entre visão científica do mundo e visão de fé, a tomada de consciência da fraqueza e da incoerência da instituição eclesial, a crise de valores, leva ao estrangulamento da fé infantil e à necessidade de sempre, re-examinar o que se crê e de submeter à crítica. Podemos dizer que a pessoa busca uma fé que responda as interrogações que está vivendo e que tenha coerência.


pessoas que ficam paralisadas a certa altura do desenvolvimento. Podem até não superar alguma etapa. Algumas pessoas só buscam as práticas religiosas agradáveis; outras nunca deixam de ter pensamento mágico e buscam sempre manipular Deus e as forças do Além em seu favor, defesa ou benefício; algumas outras nunca assumem a responsabilidade pelos seus atos. Como podemos ver, muitas vezes as falhas na vivência da religião são impasses não superados no campo do desenvolvimento psicológico, afetivo ou relacional. A solução não virá de penitência, repetição de orações, mas de um bom acompanhamento psico-espiritual.

 


(Texto extraído da Apostila de Psicologia da Fé – do Curso do IRPAC – Regional Leste II da CNBB - Prof. Lucimara Trevizan)


Equipe do Catequese Hoje

15.06.2013