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Toda autêntica vida humana é vida “com” os outros, é convivência, é compartilhar... E convivência implica respeitar e se alegrar com a diversidade, considerando-a riqueza. É maravilhoso que haja raças, costumes, cultura, religiões, formas de pensar... diferentes. 

A diversidade nos permite enriquecer-nos, adquirir mais humanismo. Diferença é expressão inerente ao ser humano, é modo de pensar, de dizer, de trabalhar, de existir e de conviver. 

Todos temos direito a ser singulares, direito a ser diferentes, direito a partilhar e receber dos outros. Daí a importância de aprender a ver o melhor em cada pessoa e em cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas de todo tipo de racismo, xenofobia, desprezo, preconceito, intolerância, fanatismo....

Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade.

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Historicamente, o ser humano sempre foi e é afetado por estes dinamismos de morte - fanatismo, preconceito, intolerância – que o levam a uma atrofia em sua humanidade, rompendo uma sadia relação com o outro diferente. Tais dinamismos negativos desvelam uma profunda insegurança pessoal. Um eu psicológico e espiritual não suficientemente integrado revelar-se-á carente de “seguranças absolutas”, que sustentem sua precária e instável sensação de identidade. Esta ameaça é a que se esconde por detrás das palavras de João, no evangelho de hoje: “nós o proibimos porque não é dos nossos”. 

Diante da postura preconceituosa de João, Jesus reage: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim”. Aqueles que temem a diferença, amoitam-se no comodismo e na estagnação; tornam-se incapazes de viver a intercompreensão, a comunhão e o respeito recíproco. Desumanizam-se na solidão estéril e caem no fundamentalismo fechado, inimigo de toda diferenciação e cego em face da pluralidade. Aqui nasce a intolerância, que por sua vez gera o desprezo do outro diferente, e o desprego gera a agressividade que rompe a harmonia universal. 

Aqueles que se fecham à diversidade se tornam preconceituosos, ou seja, dogmáticos e fervorosos fundamentalistas, com hostilidade e intolerância religiosa. Cegos para a verdade, eles preferem o autoengano ao conhecimento de fato; fincam pé naquilo que pensam que sabem, no que está estabelecido e normatizado; não se atualizam, não conseguem ver o novo e a necessidade de mudanças.

Ao tornarem absoluta uma verdade, se condenam à intolerância e passam a não reconhecer e a respeitar a verdade e o bem presentes no outro. Não suportam a coexistência das diferenças, a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias. Daí surgem o conservadorismo radical, o medo à mudança, a violência diante da crítica, a suspeita, a vigilância, o controle autoritário... 

Somos chamados a considerar a diferença como oportunidade, destacando a necessidade de estender pontes de diálogo e facilitar encontros com aqueles que são diferentes, tanto na Igreja como na sociedade.

Como seguidores de Jesus, fazemos parte da identidade da Igreja que é plural e diversa em seus membros, pelo qual é chamada à “comunhão na diversidade” (diferentes espiritualidades, liturgias, teologias...)

No entanto, a busca deste ideal se deparou, desde sempre, com diferentes desafios: dogmatismos, fechamento, sentimentos de superioridade, apego a normas, elitismo, legalismo, moralismo, etc...

A fé cristã em Deus, que é uno e trino, aparece como o primeiro fundamento para acolher a diferença. Também o exemplo de Jesus convida seus seguidores a sair de si mesmos, a acolher o outro como revelação de Deus. Essa fé se expressa no chamado “pluralismo comprometido”, ou seja, a busca, através de um diálogo honesto, de uma verdade, bondade e beleza sempre maiores. 

Nós cristãos vivemos inseridos no interior deste mundo de identidades plurais. Como viver essa diversidade? Mais ainda: como conviver com elas na criação de um mundo mais justo e humano para todos? 

Não podemos permanecer trancados em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. A humanidade deixou de ser distante para tornar-se mais próxima, mediante as diferenças, os diálogos e as convergências.

Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é próprio e também o que é diferente, esforçando-se para não transformar as diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas.

Segundo o físico Andréi Sajarov “a intolerância é a angústia de não ter razão”.  

É terrível quando alguém se aferra às suas próprias ideias e crenças, gerando fanatismos.  O fanatismo cega e impede ver a verdade. O fanático se empenha em permanecer preso ao passado e bate de frente contra quem pretende abrir caminhos de futuro. 

Quando alguém se fecha em suas ideias, é inútil mostrar-lhe a verdade. Quando alguém fecha sua mente aos demais é inútil mostrar-lhe a luz. Porque o fanático só crê em seus próprios pensamentos, só crê em suas próprias ideias, crê ser o único dono da verdade. 

O fanatismo costuma ser o maior obstáculo para ver e acolher a verdade presente nos outros; o fanatismo costuma ser o maior obstáculo para ver a luz que os outros irradiam.  Todo fanatismo é perigoso, mas o pior fanatismo é o religioso. Uma coisa é a fidelidade e outra é o fanatismo. O fanatismo fecha as portas a qualquer luz que venha de fora.  Quantas vítimas do fanatismo da lei! E tudo em nome de Deus; e tudo em nome da religião; e tudo em nome da defesa da verdade. 

Texto bíblico:  Mc 9,38-43.47-48 

Na oração: Despertar o eu profundo e universal é descobrir-nos como habitantes de um universo novo e espaçoso, onde a consciência expandida nos conduz ao encontro do “diferente” como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. 

Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao nosso encontro. Deixo-me surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos... ou minha vivência de fé se reduz a um ritualismo fechado, impedindo sair de mim mesmo? 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana – CEI