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“O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo” (Lc 18,11)

30º Dom. Tempo comum

 

 

Nesta parábola, mais uma vez Jesus contrapõe os dois extremos da sociedade judaica daquele tempo: o fariseu, expressão máxima da piedade e da moralidade, e o publicano, que por sua profissão, era a expressão máxima do pecador, distante dos ideais religiosos.

 

Ambos vão ao templo  para orar, e, na oração, cada um deles revela sua vida e seus sentimentos. De fato, é na oração que o ser humano exprime aquilo que é mais íntimo e mostra como ele se relaciona com os outros e com Deus.

 

Jesus nos apresenta o fariseu como protótipo da pessoa que se sente segura de si mesma, e que tem essa segurança porque cumpre minuciosamente com as observâncias religiosas. Em sua oração, ele não pede nada, mas informa a Deus sobre seu legalismo: na realidade não é Deus o centro da sua existência, mas seu eu. Ele dá graças por sua conduta perfeita e exemplar. Por considerar-se “justo”, apresenta a Deus uma lista de pessoas indesejáveis, censurando e condenando a todo mundo.

 

O risco do “farisaísmo”  é subir o pedestal da “perfeição” e do “legalismo”, distanciando-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso e é incapaz de converter-se a Deus no seu íntimo.

 

Na sua oração, o fariseu se considera “justo”  e pensa agradar a Deus com suas observâncias e práticas legais. Ocorre que não é nada elegante alguém se apresentar a Deus com as credenciais de “justo”, pois o fariseu se esquece que só Deus pode justificar o ser humano. A autoglorificação impede sua humanização. Penetra no lugar sagrado sem que o sagrado penetre nele. Petrificou-se em seu legalismo.

 

Ele está cego e não vê que também é pecador, dependente da misericórdia de Deus. Não reconhece sua realidade pobre e limitada e, em sua oração, está ausente o pedido de perdão. Incapaz de olhar intimamente para si, cobre com um véu os próprios pecados, fazendo de conta que eles não existem. Incensurável, respeitador e cumpridor de todas as leis – porém cheio de si -, o fariseu voltou para casa com um pecado a mais. A consequência é vida dupla: a fachada externa perfeita que esconde um interior frio e insensível, resistente a perceber a própria fragilidade.

 

Na sua autosuficiência e com sua oração um tanto blasfema, o fariseu está aí, de pé, para dar espetáculo, aguardando o aplauso da plateia.  Ele pensa que pode “ficar de pé” diante de Deus, que pode estabelecer o confronto sem problemas, como de igual para igual. O fariseu não suplica a Deus e nem tem necessidade de ouví-Lo; já eliminou as distâncias com as suas palavras e se ilude de ter uma linha direta com o Altíssimo.

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Na prática, a oração do fariseu significa submeter Deus a si mesmo, cobrando o prêmio pelas boas ações. Agradece porque é sem vícios, não porque se sinta amado por Deus. Seu louvor e agradecimento é apenas um pretexto para louvar a si próprio, inflar o próprio ego; na sua oração Deus não tem o lugar que lhe é devido; a oração passa a ser  um monólogo vazio e presunçoso de quem “celebra” seu “eu” e seus méritos diante de Deus. E como fala só consigo mesmo, encontra-se só com seus méritos e suas pretensões. O seu monólogo é um palavreado vazio, exibicionismo enganoso de um “eu” que não tem outro “deus” além de si mesmo. Ele tem méritos e nada deve a Deus; ao contrário, Deus é quem lhe deve: a enumeração de suas boas obras implica a pretensão de uma recompensa; ele acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes e seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros.

 

Outro aspecto importante aparece na parábola: como o fariseu se considera perfeito e não vê nenhuma falha em si mesmo, ele se acha diferente e melhor do que todos. “Ó Deus, dou-te graças porque não sou como o resto dos homens”.

 

Ao mesmo tempo que se auto-elogia, critica e despreza os outros. Ele não descobre nenhum projeto divino sobre si, basta-lhe saber que é melhor que os outros. O fato é que os grandes “observantes” são os grandes desprezadores, que não se interessam pelas pessoas e menosprezam todo aquele que não pensa e vive como eles. O agravante é que, quem vive assim não se dá conta do que faz. Isso porque faz de maneira tão dissimulada e sob formas tão “espirituais” e com argumentos tão “religiosos”, que nem ele mesmo é consciente das agressões que comete contra as pessoas que não se encaixam no seu modo de ser. Não se pode discutir com um fariseu; ele tem sempre razão.

 

Além disso, é um hipócrita, porque substitui a Vontade de Deus por leis humanas. Na prática, são indivíduos que demonstram ser ateus, porque, na realidade, o que lhes importa é sua própria honra, e não a honra de Deus. O que lhes interessa é brilhar diante dos homens; a única coisa que lhes preocupa é sua boa imagem diante das pessoas: querem ser vistos, apreciados, louvados. Não tem outro Deus a não ser eles mesmos. O que realmente envenena a vida destas pessoas não é a vaidade ou a soberba. É o ateísmo.

 

Jesus destrói o conceito de “justificação” rabínica, baseada no cumprimento da lei, quando, na pessoa do publicano, mostra que Deus salva quem julga nada ter a apresentar, sente a necessidade de se converter e de se entregar. Consciente de sua indigência e fragilidade, o publicano entrega-se a Deus sem reservas, confia-lhe o seu futuro e espera em Sua misericórdia.

 

A misericórdia é a resposta de Deus ao delírio do ser humano de querer ser perfeito; é a única força capaz de detê-lo no processo de autodivinização, própria do fariseu. O publicano não tinha esperanças: reconhecendo-se pecador diante de si mesmo, diante de Deus e dos outros, sabia que a única esperança era a misericórdia de Deus. Diante da grandeza e transcendência de Deus, sente uma necessidade instintiva de retirar-se, de deter-se, quase pedindo desculpas por ousar entrar no templo. Ele nada tem para apresentar a Deus, nada de que se orgulhar e nada para exigir. Só lhe resta a pobre oração dos excluídos e dos pecadores assumidos, dos desmoralizados e humildes.

 

O “fariseu” que todos hospedamos em nosso interior realiza seu trabalho em silêncio, mas com uma eficácia impressionante: torna o nosso coração impermeável à experiência divina e petrifica nossa compaixão na relação com os outros. O publicano, por outro lado, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. E quanto mais baixo for o ponto de partida, tanto mais alta ela vai subir... A salvação que esperamos não é fruto de nosso trabalho e penitência, de nossa prática legal e de nossas virtudes. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão.

 

Texto bíblico:   Lc 18,9-14

 

Na oração: * Fazer leitura compassiva das atitudes petrificadas em sua vida.

                   * Sua vida cotidiana gira em torno da perfeição farisaica ou da misericórdia divina?   

 

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI

21.10.2013