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Neste primeiro domingo de 2021, ouvimos a boa nova da Comunidade de Mateus (2,1-12). É tempo de esperançar: por mais distante que Deus possa nos parecer, sempre haverá um caminho para seguir ao Seu encontro... Estrelas e sonhos, céus abertos, noites claras, dunas infinitas, trilhas e desertos... Deus nos faz ser e respirar! Ele quer ser encontrado na periferia e não no centro, manifesta-se em uma casa e não no templo, se oferece pequeno em Belém e não grande, em Jerusalém!

Muitas são suas manifestações (em grego, epifania), embora no Evangelho se mostre na contramão dos que detém o poder! Está oculto aos que se julgam merecedores e escolhidos. Para reconhecê-lo é preciso abrir os olhos e o coração, mesmo que os Herodes de plantão venham a se opor, retardando o encontro ou desviando o caminho... Jamais poderão impedir sua revelação: Ele resplandecerá de qualquer maneira. Mesmo que se apresente tão pequeno, tão fraco, como uma criança!

Nesta festa em que celebramos a salvação universal, dirigida a toda humanidade, muito temos a aprender com esses sábios do Oriente, peregrinos que representam os buscadores de hoje, gente de coração e olhar puros que sabem ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta ou o sonho que desvela, uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitos, renovados.

Acompanhemos seus passos! O primeiro é saber sair da caixa, da casa, do conforto... Abrir-se para outro, o novo, olhando além do costumeiro e seguro, correr atrás de um sonho, seguir a intuição do coração! Assumir que somos seres do desejo (desiderato, do latim, vem de sidere, raiz de sideral, caminho das estrelas)! O segundo passo é pôr-se a caminhar. Não basta sonhar e desejar... Para conhecer o Senhor é necessário viajar, com inteligência e coração e não como quem faz turismo. Arriscar-se, tentar, de tradição para tradição, de livro para livro, de pessoa para pessoa. Caminhar, mesmo nas noites escuras e nos desertos da vida... Assim, estaremos vivos.

O terceiro passo: olhar juntos. Os Magos representam um pequeno grupo que olha na mesma direção, olha para o céu e para os olhos das criaturas, estão atentos às estrelas e atentos uns aos outros. Contemplar a amplitude e a profundidade de tudo! O quarto passo: não temer erros. E como erraram estes sábios! Chegam na cidade errada; perguntam sobre o novo para um decadente rei, falam sobre a criança com um tirano disposto a matar recém-nascidos; perdem a estrela e o rumo, procuram um rei e encontram uma criança nos braços de sua mãe, imaginam um trono e contemplam um colo... Erram muito, no entanto, não cedem aos seus erros, eles têm paciência para começar novamente, até que ao reencontrar a estrela que os guiara, podem sentir uma verdadeira e grande alegria.

A razão da alegria vai além da estrela: na casa (não no templo; na periferia e não no centro) eles veem a criança e sua mãe... Da estrela no céu eles contemplam a Luz que ilumina toda vida: não só Deus é como nós, não só ele está conosco, mas ele é pequeno entre nós! Manifesta-se a estrela de Davi: o rebento que germina, um menino que nos foi dado. Os Magos e, com eles, a toda humanidade, orientam para aquele Menino toda a sua vida: este é verdadeiro significado do verbo “adorar”! Esta adoração pessoal é o verdadeiro culto que podemos prestar, o efetivo presente que podemos oferecer.

Eis um autêntico modelo de adoração! Estes sábios sabem olhar o cosmos até o fundo, captar sinais, aproximar-se do Mistério e ofertar sua humilde homenagem a esse Deus encarnado na nossa existência. Como sabemos, desde Irineu de Lion (130-203), o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento. Presentes que significam não somente a identidade do Menino Deus (Rei, Divino e Humano), mas a própria vida (jornada) dos sábios: ofertando sua realidade, seu culto e sua fragilidade para ser tocadas e transfiguradas por Deus.

Também todos nós podemos oferecer nossa vocação de reis/rainhas (ouro), sacerdotes/sacerdotisas (incenso) e profetas e profetizas (mirra) para participar do Reino do Filho de Maria! Esta adoração a Deus não afasta do compromisso, não aliena da existência. Quem adora Deus, luta contra tudo o que destrói o ser humano, que é a Sua “imagem sagrada”. Quem adora o Criador respeita e defende a sua criação. Na adoração unem-se intimamente a solidariedade e o cuidado com a casa comum. “Quanto mais o ser humano se humaniza, mais experimentará a necessidade de adorar” (Teilhard de Chardin)

Por fim, neste pequeno relato, com traços de síntese de todo Evangelho, já antevemos a rejeição de Jesus pelas autoridades (Mateus27,32-44) na perturbação vivida por Herodes e toda Jerusalém com a visita dos magos (Mateus 2,3) e a alegria das mulheres, antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8) antecipada na alegre experiência dos magos ao ver novamente a estrela (Mateus 2,10); como também, o inútil domínio das Escrituras por parte dos “sacerdotes e escribas do povo”, que sabem a verdade acerca do Messias, mas são incapazes de reconhece-Lo em Belém (Mateus 2,4-6).

O último passo é o retorno (conversão) inspirado em sonhos: “por outra estrada regressaram à sua terra” (Mateus 2,12). Quem viu o que os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, quem viu e contemplou Jesus, já não pode mais limitar-se a continuar andando por caminhos velhos. Terá mesmo que abrir um caminho novo: voltar para o oriente (onde nasce o sol) sem passar pelo palácio (templo) do rei em Jerusalém... Deixar Belém, casa do Pão, alimentados de luz, caminhar sempre em direção à Luz que nasce, sem se deixar enganar pelas falsas luminárias do poder estabelecido.

Eis o convite que nos é feito hoje, festa das manifestações de Deus a todas as nações: que as comunidades cristãs pratiquem o acolhimento e à abertura; a coragem de ler os sinais de Deus e pôr-se a caminho; não temer a escuridão e pacientemente acolher os erros e aprender com eles; reconhecer Deus que vem ao nosso encontro na fragilidade de nossa história e na pequenez de uma criança. Encher-se da verdadeira alegria que nos faz enxergar além das aparências e transparências. Amém!

Pe. Paulo Roberto Rodrigues

Festa de Basílio Magno e Gregório de Nazianzo, 03 de janeiro de 2021