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Chegamos ao Natal! Em muitos persiste um sentimento de estranheza: momentos de isolamento, incerteza de confraternizações, impaciência diante dos decretos de cuidados sanitários, uma epidemia em anunciado crescimento... O que fazer? Como viver este tempo? Para cristãos ou não, o Natal pode ser um momento de intimidade, possibilidade de degustar afetos, celebrar a vida em grupo, ocasião de gratuidade: de se sentir amado, de estar juntos, de receber e dar atenção, olhares e palavras trocados na alegria e de dizer sim à vida.


É o que proclamamos na aventura de ser cristãos e cristãs: Deus está conosco, vem para participar da vida e isto é festa para nós! Não um espetáculo nem entretenimento! É uma boa notícia: uma realidade que transforma a nossa vida! Assim proclama Lucas (2,22-40): um casal muito jovem e um recém-nascido vão à Cidade Santa para oferecer, em agradecimento, a pobre oferta dos pobres (duas pombas) e seu bem mais precioso: uma criança! Eles vão para a casa de Deus, mas é o Senhor que virá ao seu encontro através de duas criaturas mergulhadas na vida e no espírito, dois anciãos, Simeão e Ana, olhos cansados da velhice e jovens corações para desejar: a velhice do mundo acolhe em seus braços a juventude eterna de Deus!


Neste encontro ocorre a verdadeira liturgia: no pátio aberto a todos, Simeão toma Jesus em seus braços e abençoa a Deus, Ana espalha o louvor e espalha entre a multidão presente uma onda de esperança. Um leigo faz o gesto sacerdotal, uma leiga guiada pelo Espírito Santo começa a bendizer a criança e a Deus: uma liturgia autêntica, possível para todos e em todos os tempos. Um ancião e uma ancião, cheios de esperança, revelam espiritualidade: a bênção não é um encargo da elite, mas uma exuberância de alegria que todos podem oferecer a Deus.


Maria e José também são abençoados; toda a família está envolta em um véu de luz para o louvor e a profecia daquele casal de anciãos leigos, formando uma ampla família, profética e sacerdotal ao mesmo tempo: bênção e profecia não são propriedade exclusiva de oficiais religiosos, é dom de Deus e é oferecido no pátio aberto a todos. O Espírito havia revelado a Simeão que não morreria sem antes ver o Messias. Palavras que são para mim e para você: não morreremos sem ter visto a inciativa de Deus, a iniciativa da luz já está presente em todos os lugares, num recém-nascido, numa semente lançada na terra, na levedura do fermento na massa!


Simeão diz três palavras imensas sobre Jesus: ele está aqui como queda, ressurreição, como um sinal de contradição. Jesus provoca a queda de nossos pequenos ou grandes ídolos, ruína do nosso mundo de máscaras e mentiras, de vida insuficiente e doente. Ele veio para arruinar tudo o que arruína o ser humano, para trazer espada e fogo para cortar e queimar o que é contra a vida. Ele está aqui para a ressurreição: é a força que nos faz levantar quando imaginamos que tudo está acabado, que nos faz sair mesmo que sintamo-nos vazios e envoltos pela escuridão. Jesus está aqui e garante que viver é a experimentar a paciência infinita de recomeçar. Cristo contradiz nosso equilíbrio ilusório entre dar e ter; que contradiz toda a nossa mediocridade, todos os nossos equívocos sobre Deus.


A figura de Ana enfatiza o papel feminino na nova aliança, está junto com Maria, irmã de Moisés e Aarão (Êxodo 15,20), Débora (Juízes 4,4), Hulda (2Reis 22,14), a esposa de Isaías (Isaías 8,3). Mulheres que, além de Isabel e Maria, são capazes de encantar-se na frente de um recém-nascido porque sentem Deus como cumpridor das promessas, aliado dos pequenos e marginalizados. Sua presença testemunha a divina misericórdia e alimenta em todos nós a esperança de consolo e libertação.


Neste primeiro domingo após o Natal, portanto, a Igreja nos convida-nos a contemplar a Família de Nazaré, caminhando de Belém a Jerusalém. Mostra-nos o encontro desta pequena família com Simeão e Ana, ajudando-nos a perceber que o sagrado se manifesta na grande família dos que esperam em Deus. O centro deste acontecimento é Jesus. Ele é aquele que aproxima as gerações. Jesus é a fonte daquele amor que une as famílias e as pessoas, vencendo cada divisão, cada isolamento, cada distanciamento.
Possamos todos vivenciar esta experiência sagrada de viver o Natal, se não na companhia de todos aqueles que gostaríamos de ter ao nosso lado, pelo menos com os nossos entes queridos, com aqueles que moram conosco. Numa refeição preparada com amor, compartilhada na alegria, que possa significar: “Eu me sinto bem com vocês”; “Vocês são importantes para mim”. E na partilha de presentes, possamos reconhecer que estamos presentes e desejamos ser presença uns para os outros. Viveremos a antiguidade dos sentidos na juventude eterna de Deus. Amém!


Pe. Paulo Roberto Rodrigues 

27.12.2020 - Festa de são João Evangelista

Imagem: Rupinik