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Advento: céus que abrem, olhos procuram a luz! 

O advento, início do novo ano litúrgico, é como uma porta que se abre, um horizonte que se amplia, uma brecha nas paredes, um buraco na rede, uma rachadura no teto, um punhado de luz que a liturgia joga em nossos rostos. Não para nos deslumbrar, mas para nos acordar. Para nos ajudar a romper, com toda nossa força, cada céu escuro que encontramos. Assim nos sentimos nestes dias, neste ano de 2020: pandemia, violência, isolamento, medo...

No Evangelho, Jesus fala da noite, com riqueza de detalhes: "você não sabe quando Ele virá, seja à noite, à meia-noite, no cantar do galo, ou pela manhã" (Marcos 13,35). Uma coisa é certa: Ele virá! Mas enquanto isso, com Isaías gritamos a Deus: “Que o Senhor derrube o céu! (Isaías 63) No mesmo tom maior, Deus é invocado pelo Salmista: “Iluminai a vossa face sobre nós, restaura-nos, para que sejamos salvos (Salmo 80[79]).

Não é o ser humano, com boas intenções, quem sobe ao céu; é o Senhor das Alianças que desce, em seu caminho em todas as estradas, um peregrino sem-teto, que procura casa, e que necessita a minha e a tua acolhida (como na parábola de domingo passado)! Isaías vira nossa ideia de conversão: voltar, rasgar os céus em pedaços, descer: para converter-se a suas criaturas. Embora o profeta pense na vinda de Deus, a liturgia nos faz pensar na vinda de Jesus. Mas essa memória deve ser acompanhada pelo reconhecimento de nossa fraqueza...

Talvez sem nos darmos conta, a nossa vida vai perdendo cor e intensidade. Pouco a pouco parece que tudo começa a ficar pesado e aborrecido. Vamos fazendo mais ou menos o que temos de fazer, mas a vida não nos preenche. Um dia comprovamos que a verdadeira alegria foi desaparecendo do nosso coração. Já não somos capazes de saborear o bom, o belo e grande que há na existência. Pouco a pouco, tudo se foi complicando. Talvez já não esperemos grande coisa da vida ou de ninguém. Já nem acreditamos em nós mesmos. Tudo nos parece inútil e com pouco sentido. Pouco a pouco, fomos caindo no ceticismo, na indiferença ou na “preguiça total”. Preocupados com muitas coisas que nos pareciam importantes, a vida foi-se nos escapando. Envelhecemos interiormente e algo está prestes a morrer dentro de nós. Que podemos fazer?

A primeira coisa é acordar e abrir os olhos. Vigiar. Para ver não só se precisa ter olhos abertos, mas também é necessário ter luz. Para nós, a luz é Jesus, sua vida e sua palavra. As primeiras comunidades rezaram: "Maranatha" (Vem, Senhor!). Elas viviam a contradição de uma promessa realizada e uma vinda futura: "já, mas ainda não." "Já" por parte de Deus, que já nos deu salvação. "Ainda não" porque ainda estamos esperando uma salvação à nossa medida e não descobrimos a verdadeira salvação, que já possuímos.

A resposta de Deus excede em muito o que pedimos, embora de forma diferente de nossa expectativa. Deus, o Pai, não rasga o céu, ele não vem nos encontrar espetacularmente. Manda Jesus, e a partir do momento em que o aceitamos, nossas vidas mudam completamente. No passado, Deus nos enriqueceu em tudo; Ele nos chamou para participar da vida de seu Filho, Jesus Cristo: imagem poderosa, lembra a experiência de um filho com sua mãe, da qual ele recebe sua vida. Mas essa relação vital não termina quando o cordão umbilical é cortado, ela cresce a cada dia na convivência e construção dos vínculos afetivos.

Aqui reside o significado do Advento. Como "ainda não" chegou a verdadeira salvação, temos que tentar avançar o "já". Não vamos conseguir isso se continuarmos dormindo. O ser humano ainda está esperando a salvação que vem de fora, seja material, seja espiritual. Mas acontece que a verdadeira salvação está dentro de cada um. Na verdade, Jesus nos disse que não tínhamos nada a esperar, que o Reino de Deus já estava dentro de nós. Agora ele está vindo.

Se estivermos dormindo, continuaremos esperando. Só depende de nós, despertar. Podemos passar a vida inteira dormindo, por essa situação a ninguém podemos culpar. Isso é o que devia nos aterrorizar: que nossa existência possa se passar sem desvendar as possibilidades de plenitude que ela contém. A alternativa não é salvação ou condenação. Ninguém vai condenar-nos. A alternativa é a plenitude humana ou a simples superficial banalidade.

O verdadeiro problema está na divisão que encontramos em nosso ser. Em cada um de nós há duas bestas lutando até a morte: uma é o meu verdadeiro ser que é o amor, a harmonia e a paz; outra é o meu falso eu que é o egoísmo, orgulho, ódio e vingança. Qual de nós vai ganhar? Muito simples e lógico. Ele vai bater no que você se alimenta.

"As coisas mais importantes não devem ser procuradas, elas devem ser aguardadas" (Simone Weil). Mesmo um ser humano deve ser sempre esperado. Parece-nos pouco, porque queremos ser ativos, fazer, construir, determinar coisas e eventos. Em vez disso, Deus não se merece, a Ele se acolhe; não se conquista, se espera. Jesus no Evangelho deste domingo nunca se cansa de repetir o refrão de duas atitudes, nosso equipamento espiritual para o caminho da expectativa: estar atento e cuidado (Marcos 13,33.35.37). A atenção tem a mesma raiz de expectativa: é um tender a... Amor é atenção. A atenção já é uma forma de oração, e é a gramática elementar que salva minha vida interior.

A segunda atitude: cuidado. Que Pablo Neruda assim o celebrou: "Eu tenho deveres amanhã./ Trabalhos do meio-dia./ Eu tenho que abrir janelas, derrubar portas,/ quebrar paredes, iluminar cantos./ Eu tenho que me separar até que seja o dia todo,/ até que tudo seja clareza/ e alegria na terra.”

Observemos os primeiros passos de paz, da luz do amanhecer deitado na parede da noite, ou no fim do túnel desta pandemia. Observemos e guardemos todas as filmagens, tudo o que nasce e desponta traz uma carícia e uma sílaba de Deus. Ele vem, já está no meio de nós. Amém.

Pe. Paulo Roberto Rodrigues, Arquidiocese de Campinas, no primeiro domingo do advento, 2020

Imagem: pexels.com