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O Pentecostes não se deixa cingir pelas nossas palavras. A própria liturgia multiplica as línguas para o dizer: na primeira leitura (Atos dos Apóstolos 2,1-11) o Espírito arma e desarma os apóstolos, apresenta-os como inebriados por alguma coisa que os atordoou de alegria, como um fogo, uma divina loucura que não podem conter. E isto após a narrativa da casa de chamas, de um vento de coragem que escancara portas e palavras. E a primeira Igreja, enrocada na defensiva, é lançada para fora e para a frente.

A nossa Igreja, tentada, hoje como então, de enrocar-se e fechar-se, porque em crise de números, porque aumentam aqueles que se declaram indiferentes ou ressentidos, sobre esta minha Igreja, amada e infiel, vem a sua paixão que nunca se rendeu, a sua energia imprudente e belíssima.

O Salmo responsorial (103) olha para longe: «Do teu Espírito, Senhor, está cheia a Terra». Uma das afirmações mais belas e revolucionárias de toda a Bíblia: toda a Terra está grávida, cada criatura é como que grávida de Espírito, mesmo se não é evidente, mesmo se a Terra nos aparece grávida de injustiça, de sangue, de insanidade, de medo.

Cada pequena criatura está preenchida do vento de Deus, que semeia santidade no cosmo: santidade da luz e do fio de erva, santidade da criança que nasce, do jovem que ama, do ancião que pensa. A humilde santidade do bosque e da pedra. Uma divina liturgia santifica o universo.

A terceira via do Pentecostes é dada pela segunda leitura (1 Coríntios 12,3b-7.12-13). O Espírito vem consagrando a diversidade dos carismas: beleza, genialidade, unicidade própria para cada vida. O Espírito quer discípulos geniais, não banais repetidores. A Igreja como Páscoa pede unidade em torno à cruz; mas a Igreja como Pentecostes quer diversidade criativa.

O Evangelho (João 20,19-23), por fim, coloca o Pentecostes no entardecer da Páscoa: «Soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo». O Espírito de Cristo, que o faz viver, vem para nos fazer viver, leve e quieto como um respiro, humilde e obstinado como o batimento do coração.

O poeta Ovídio escreve um verso fulgurante: “Est Deus in nobis”, há um Deus em nós. Esta é toda a riqueza do mistério: «Cristo em vós!» (Colossenses 1,27). A plenitude do mistério é de uma simplicidade deslumbrante: Cristo em vós, Cristo em mim.

Aquele Espírito que incarnou o Verbo no ventre de Santa Maria flui, inesgotável e ilimitado, continuando a mesma obra: fazer da Palavra carne e sangue, em mim e em ti, fazer-nos todos grávidos de Deus e de genialidade interior.

Para que Cristo se torne minha língua, minha paixão, minha vida, e eu, como os loucos e ébrios de Deus, me coloque a caminho atrás dele, «o único pastor que pelos céus nos faz caminhar» (D.M. Turoldo). 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 28.05.2020 no SNPC